
Europa aperta regras de circularidade enquanto cresce a fatura ambiental dos maiores consumidores
Novas exigências da UE para veículos e o sucesso do mercado de carbono contrastam com um estudo que atribui até 5,7 biliões de dólares em danos anuais aos 10% mais ricos do planeta.
O Parlamento Europeu aprovou esta semana, por larga maioria, um regulamento que obrigará todos os novos veículos fabricados na União a incorporar materiais reciclados e a facilitar a sua desmontagem no fim de vida. A medida, aplaudida em Lisboa e noutras capitais europeias, insere-se numa estratégia mais vasta de circularidade que já rendeu frutos: o mercado de carbono do bloco, em funcionamento há duas décadas, reduziu para metade as emissões das indústrias mais poluentes e arrecadou 260 mil milhões de euros, sem travar o crescimento económico. Bruxelas defende este sistema de comércio de licenças como a trave-mestra da neutralidade climática até 2050, expandindo-o agora a setores até aqui isentos.
Contudo, a pressão regulatória europeia contrasta com a escala global da crise. Um estudo publicado na Communications Sustainability estima que os 10% mais ricos do mundo — incluindo elites no Brasil, China, Alemanha, Egito, Índia e Estados Unidos — geram entre 1,7 e 5,7 biliões de dólares em danos ambientais por ano, com um custo per capita de até 7.500 dólares. A análise expõe uma fratura Norte-Sul que ecoa em Maputo e São Paulo: enquanto os maiores consumidores concentram o impacto, agricultores indianos, e por extensão comunidades rurais em África e na América Latina, são penalizados por uma contabilidade de carbono que não valoriza devidamente o sequestro de CO₂ nos solos. A injustiça contabilística, denunciada por especialistas, impede que a agricultura regenerativa seja remunerada pelo serviço climático que já presta.
Nos mercados financeiros, os sinais são contraditórios. Em Estocolmo, analistas elevaram a recomendação da Getinge para compra, citando a baixa valorização do setor de tecnologia médica e a redução de custos de qualidade — um movimento que reflete a procura por eficiência também na saúde. Em contrapartida, a Karnov desabou após uma nota de venda, enquanto a operadora de estâncias de esqui Skistar disparou com resultados positivos. A recuperação das ações de semicondutores em Wall Street, impulsionada pela inteligência artificial, adiciona outra camada: a transição digital promete ganhos de produtividade, mas é ela própria grande consumidora de energia e matérias-primas.
Observadores em Brasília notam que o Brasil, um dos seis países analisados no estudo sobre consumo, enfrenta um duplo desafio: reduzir a pegada da sua elite sem sufocar o agronegócio, que poderia beneficiar de um mercado de carbono que reconheça o sequestro no solo. A experiência europeia mostra que é possível dissociar crescimento de emissões, mas a fatura ambiental dos mais ricos exige políticas de procura, não apenas de oferta. O novo regulamento automóvel e a expansão do ETS são passos nessa direção, mas a correção das regras contabilísticas para o carbono agrícola será decisiva para que países lusófonos com vocação rural não arquem sozinhos com a fatura da descarbonização global.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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O Parlamento Europeu aprovou novas regras que exigem materiais reciclados na fabricação e desmantelamento de veículos. É um passo pragmático rumo à circularidade, reforçando a liderança regulatória europeia.
Os quadros contábeis globais de carbono ignoram sistematicamente o potencial de sequestro da agricultura regenerativa, penalizando os agricultores indianos. Essa injustiça contábil impede que o setor seja devidamente recompensado pela remoção de CO₂, expondo profundas desigualdades globais.
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