
Espanha racha frente europeia e atrai investimento chinês; África ganha relevância
Enquanto Madrid recua em medidas anti-China e atrai fábricas de elétricos, UE tenta reforçar laços com África e prepara cimeira do G7 num tabuleiro global reconfigurado.
No último mês, Madrid concretizou uma viragem que expôs as divisões europeias face à China. O primeiro-ministro Pedro Sánchez, após a quarta visita a Pequim em quatro anos, retirou o apoio espanhol a novas medidas de defesa commercial da União Europeia e classificou a China como “aliada potencial”. A decisão alinha-se com o interesse direto do país: Espanha foi o segundo maior destino de investimento chinês em veículos elétricos na UE em 2025, destacando-se a gigafactory da CATL e Stellantis em Saragoça, orçada em 4,1 mil milhões de euros. Enquanto Bruxelas impunha tarifas às importações chinesas, Pequim acelerava a instalação de capacidade produtiva dentro do espaço comunitário, aproveitando custos laborais inferiores e instalações industriais desativadas.
A estratégia europeia de “redução de riscos” não apresenta resultados mensuráveis: três anos após o lançamento, a Comissão nunca contabilizou publicamente que dependências foram reduzidas nem a que custo. As tarifas sobre veículos elétricos fabricados na China não travaram a ofensiva comercial, apenas incentivaram fabricantes como a BYD a adquirir fábricas já existentes para acelerar a produção local, conforme confirmou a vice-presidente executiva Stella Li. Para analistas em Paris e Berlim, o problema central é de competitividade interna, e não de concorrência desleal.
Enquanto a China se afirma como parceiro fiável para África, ao estender o acesso com tarifa zero à maioria das economias do continente, a União Europeia procura reforçar laços. No 10.º Fórum Empresarial Nigéria-UE, representantes comunitários e da CEDEAO apresentaram a Nigéria como plataforma para um mercado de 400 milhões de consumidores na África Ocidental e 1,4 mil milhões no âmbito da Zona de Comércio Livre Continental Africana. O investimento chinês, porém, tem a vantagem da previsibilidade e da rapidez na execução de projetos em setores como agroprocessamento e economia digital, áreas críticas para a transformação estrutural de que o continente necessita. Para Angola e Moçambique, a competição entre potências externas pode ampliar margens de negociação.
A cimeira do G7 em Évian-les-Bains, na próxima semana, colocará estas tensões num quadro mais amplo de cooperação internacional, inovação tecnológica e transição energética. Observadores em Lisboa notam que a clivagem aberta por Espanha fragiliza a posição negocial do bloco, enquanto o Brasil, atento às dinâmicas de protecionismo, avalia os reflexos para as relações Mercosul-UE. O debate sobre métricas de desenvolvimento que vão além do PIB, ganhando eco nas salas de aula indianas, também deverá ecoar nas discussões do G7, onde se espera que os líderes confrontem a insuficiência dos modelos económicos tradicionais face aos desafios de desigualdade e sustentabilidade.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A Espanha, por meio de seus acordos bilaterais, age como uma alavanca que escancara a porta da UE para a China, minando a estratégia comum europeia. Milhões de investimentos chineses em setores estratégicos espanhóis agravam o déficit comercial e aprofundam as divisões entre os Estados-membros. A postura de Madri ameaça enfraquecer a posição de negociação da Europa.
A UE culpa a China pelo seu défice comercial, mas os verdadeiros problemas estão nos seus próprios desequilíbrios macroeconómicos internos. Pequim apresenta-se como um parceiro fiável, aberto ao diálogo construtivo, enquanto Bruxelas procura bodes expiatórios. A abordagem de Madrid reflecte uma escolha pragmática que outros países europeus poderão seguir.
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