
Entre plumas e diamantes: a semana em que a alta-costura se reinventou em Paris
A presença de estrelas latinas e indianas, a estreia de Piccioli na Balenciaga e o anúncio da Hermès marcaram uma edição que desafiou as fronteiras do luxo artesanal.
Na penumbra da sala de desfiles, o vestido castanho de Danna captava a luz como seda líquida. A cantora mexicana, única celebridade do seu país convidada para o desfile de Robert Wun, partilhou nas redes sociais um desabafo: desde que descobrira o trabalho do criador de Hong Kong, sonhara vestir uma daquelas peças e viver o espetáculo na primeira fila. O momento concretizou-se com um modelo de ombros nus e corpete estruturado, coroado por um chapéu assimétrico que escondia o cabelo e transferia toda a atenção para a arquitetura do vestido. Ao seu lado, Cardi B ocupava outro lugar cobiçado, num front row que se tornou um dos mais comentados da Semana da Alta-Costura de Paris.
A edição de outono-inverno 2026-2027 ficou marcada por uma convergência de estreias e reencontros. Pierpaolo Piccioli apresentou a sua primeira coleção de alta-costura para a Balenciaga, resgatando o gazar — tecido inventado por Cristóbal Balenciaga em 1958 — e introduzindo uma seda biossintética produzida a partir de proteínas de aranha. O desfile, realizado na escadaria da Cité Internationale Universitaire, culminou com Gigi Hadid a usar um capuz de penas de galo que lhe envolvia o rosto, numa peça que, segundo a maison, reinterpretava uma criação histórica do fundador. Na Chanel, Matthieu Blazy transportou os acessórios para um universo de contos de fadas, com saltos que brotavam flores e borboletas, enquanto o indiano Manish Malhotra, estreante no calendário oficial, dedicou a coleção à mãe recentemente falecida, abrindo o desfile com um casaco onde se esculpiam as silhuetas de uma mulher e um menino.
A semana revelou também uma reconfiguração silenciosa do luxo. A Hermès, casa historicamente associada à marroquinaria, anunciou que entrará no calendário da alta-costura em janeiro de 2027, sob a direção de Nadège Vanhée. O movimento foi interpretado por analistas europeus como o culminar de uma estratégia que há muito extravasava as fronteiras dos acessórios: a mesma perícia artesanal que sustenta as bolsas Birkin e Kelly será agora aplicada a peças de vestuário feitas inteiramente à medida. Durante os desfiles, a empresária indiana Isha Ambani exibiu uma Birkin Sac Bijou, bolsa-miniatura em ouro branco e diamantes avaliada em dois milhões de dólares, lembrando que a joalharia e a moda já não pertencem a territórios estanques.
Para o público latino-americano, a presença de Danna na primeira fila de Robert Wun foi lida como um sinal de que a região ganha peso enquanto mercado e fonte de inspiração estética. A cantora, que nos últimos anos estreitou laços com casas de luxo europeias, representou um elo entre a alta-costura parisiense e uma audiência global que consome moda através das redes sociais. Já a estreia de Manish Malhotra foi saudada por observadores em Mumbai como o reconhecimento há muito esperado da riqueza têxtil e do saber-fazer artesanal indiano, que durante décadas alimentou os ateliês das maisons francesas sem que os criadores do subcontinente tivessem assento no calendário oficial.
No final, a imagem que perdura é a de uma peça que desafiou a gravidade e a função. Não o vestido de noiva de Cristóbal Balenciaga, nem a bolsa coberta de diamantes, mas o capuz de penas negras que Gigi Hadid usou na escadaria. Leve e monumental, a escultura efémera não escondia o corpo: nascia dele, como se a alta-costura, na sua forma mais pura, fosse sempre uma segunda pele a ponto de se desprender.
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A semana da alta-costura deslumbra com desfiles repletos de estrelas e temperaturas escaldantes, provando o poder da moda de cativar.
Ao enfatizar a exclusividade, a presença de celebridades e o grande número de horas de artesanato, a cobertura torna o evento tanto aspiracional quanto inatacável.
A cobertura omite a estreia do designer indiano Manish Malhotra, cuja coleção emocional 'Maa' foi um destaque para o público sul-asiático, perdendo assim uma narrativa cultural significativa que complicaria seu foco nas marcas ocidentais.
A estreia de Manish Malhotra na Semana de Alta-Costura de Paris é um triunfo de amor e memória, uma homenagem de um filho à fé inabalável de sua mãe que tornou seus sonhos possíveis.
Ao tecer uma narrativa profundamente pessoal de memórias de infância e sacrifício materno, a cobertura transforma uma estreia de moda em uma história universal de amor familiar e perseverança, tornando a conquista íntima e identificável.
A cobertura omite o contexto mais amplo da onda de calor e dos desfiles de outros grandes designers, concentrando-se exclusivamente na história emocional de Malhotra, o que pode ser visto como provinciano e ignorando a natureza competitiva do evento.
A relevância da semana da alta-costura é questionada, mas a arte em exibição silencia os céticos, enquanto novos designers trazem uma visão fresca que transcende os debates habituais.
Ao levantar primeiro as críticas padrão à alta-costura e depois notar que os próprios designers não estão se envolvendo com elas, a cobertura posiciona a arte como evidente e acima de preocupações mesquinhas, validando assim o evento sem argumentos defensivos.
A cobertura omite as aparições de celebridades e os acessórios lúdicos e excêntricos destacados pela cobertura latino-americana, bem como as histórias pessoais emocionais como a de Manish Malhotra, concentrando-se em vez disso no mérito artístico e nos debates internos da indústria.
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