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Mídia e Entretenimentosábado, 4 de julho de 2026

Do vazio à criação: quando o nada se torna matéria de arte

Da luta de Claude Lanzmann para filmar o extermínio à cozinha como sala de emergências, obras recentes mostram como a fragilidade humana alimenta narrativas que atravessam continentes.

“Tudo o que eu tinha era o nada.” A frase é do realizador Claude Lanzmann, registada em diários e gravações que agora alimentam o documentário All I Had Was Nothingness, de Guillaume Ribot. Durante doze anos, Lanzmann percorreu a Alemanha, a Polónia, Israel e os Estados Unidos sem um único dólar americano — recusado por financiadores que esperavam mensagens de esperança —, obstinado em fitar o que chamou de “sol negro do Shoah”. O making of, exibido em plataformas israelitas, revela um cineasta à beira da desistência, convencido de que o sofrimento sem sentido o engoliria. No entanto, foi dessa travessia pelo vazio que nasceu um dos documentários mais influentes do século XX.

Essa mesma obstinação em transformar a dor em linguagem ecoa noutras geografias. No Bangladesh, a coletânea Koyekti Nodi O Ekti Somudro (Alguns Rios e um Mar) resgata contos inéditos do escritor e cineasta Zahir Raihan, desaparecido em 1972. Publicados originalmente entre 1955 e 1970 em revistas, os textos expõem a exploração agrária, a fome e a vulnerabilidade das mulheres numa sociedade em convulsão. Numa das narrativas, um velho camponês lamenta ter gasto a vida a pagar uma dívida de trinta takas; noutra, o suicídio de uma adolescente de quinze anos desencadeia uma investigação policial que se transforma num labirinto de incertezas. A crítica literária em Dhaka sublinha que a redescoberta destas histórias amplia a compreensão de um autor cuja obra sempre se alimentou do pulsar político e íntimo do seu povo. Também a novela Ishwarkol, de Sadia Sultana, publicada em 2021, mergulha no trauma: a protagonista, abusada na infância por um familiar, percorre um caminho de reconciliação que só se completa quando, já adulta, consegue dizer ao marido “quero um filho no meu colo”.

A fragilidade como condição da beleza é o centro da obra de Yasunari Kawabata, o primeiro japonês a receber o Nobel de Literatura. “A vida humana é frágil como o orvalho da manhã”, escreveu, e a sua biografia parece confirmar a metáfora: órfão antes dos dez anos, perdeu pais, irmã e avós, e acabou por se suicidar em 1972, pouco depois da morte do amigo Yukio Mishima. Leitores em Lisboa e São Paulo reconhecem nos seus romances uma melancolia que não se rende ao desespero, mas que encontra na impermanência uma forma de eternidade. Essa mesma busca de sentido perante a perda atravessa o cinema argentino: em Un buda (2005), de Diego Rafecas, dois irmãos marcados pelo desaparecimento dos pais durante a ditadura militar procuram respostas — um na filosofia, o outro na prática zen. Rafecas afirmou que o seu filme não é sobre budismo, mas sobre “a forma como as aprendizagens chegam na vida; às vezes, as boas lições são amargas no começo”.

A gastronomia também se tornou palco dessa crueza. A série The Bear, cuja temporada final estreou em junho na Disney+, transformou a cozinha num espaço de alienação e beleza simultâneas, filmado como uma sala de emergências. O chef dinamarquês René Redzepi, do Noma, comparou a produção a The Wire, e o argentino Dante Liporace, do restaurante Mercado de Liniers, nota que hoje há comensais que se sentam à barra para o ver cozinhar, como se assistissem a uma “série ao vivo”. Do outro lado do Atlântico, o texano Evan LeRoy, estrela Michelin, recupera o respeito pelo animal inteiro e pelos cortes esquecidos, rejeitando a carne embalada que, nos anos 1950, afastou os pitmasters da tradição centenária dos imigrantes alemães e checos. A sua cozinha, que serve desde bisonte a codorniz, nasceu da saudade que sentiu da barbacoa enquanto estudava literatura inglesa — uma morriña que o fez regressar a Austin para reinventar um ofício.

Observadores culturais em Tel Aviv, Buenos Aires e Dhaka identificam um movimento comum: a recusa do adorno fácil. Seja no documentário de Lanzmann, nos contos póstumos de Raihan ou na cozinha nervosa de Carmy Berzatto, o que emerge é uma arte que não teme o desconforto. Resta a imagem do orvalho que se evapora com os primeiros raios de sol — e a certeza de que, enquanto houver quem se demore a olhar para ele, o nada continuará a transformar-se em narrativa.

Divergência — quem conta como
Eixo: Geopolitical critique vs. Factual detachment
30%Média
2 blocos · posições de −0.60 a 0.00
Critici dell'intervento USANeutrali descrittivi
LATEUR
Divergência entre blocos de imprensa
Imprensa latino-americana0.00neutral
Imprensa europeia continental−0.60critical
Os meios de comunicação venezuelanos e americanos não estão presentes neste cluster.
Imprensa latino-americana0.00
Voz

A Argentina conta os mortos e reorganiza seu gabinete sem comentários geopolíticos.

Mecanismobanalizzazione

Ao inserir o terremoto venezuelano entre as notícias domésticas de rotina, o relatório normaliza o desastre e o despolitiza, fazendo-o parecer uma mera estatística.

Omissão

O relatório omite qualquer menção ao envolvimento dos EUA ou à luta política pelo controle da Venezuela, reduzindo o evento a um número e a uma mudança administrativa interna.

DistanciamentoPragmatismo
Imprensa europeia continental−0.60
Voz

Os Estados Unidos são acusados de usar o terremoto como pretexto para fortalecer seu controle sobre a Venezuela, bloqueando qualquer oposição.

Mecanismodenuncia di egemonia

O artigo constrói uma narrativa de desígnio imperialista americano ao apresentar a viagem bloqueada como evidência de uma estratégia deliberada para controlar a Venezuela, usando um único evento para implicar uma conspiração maior.

Omissão

O artigo omite o número exato de mortos e a resposta interna do governo argentino, concentrando-se apenas nas ações americanas e ignorando a escala humanitária do desastre.

AlarmeIndignaçãoCeticismo

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sábado, 4 de julho de 2026

Do vazio à criação: quando o nada se torna matéria de arte

Da luta de Claude Lanzmann para filmar o extermínio à cozinha como sala de emergências, obras recentes mostram como a fragilidade humana alimenta narrativas que atravessam continentes.

“Tudo o que eu tinha era o nada.” A frase é do realizador Claude Lanzmann, registada em diários e gravações que agora alimentam o documentário All I Had Was Nothingness, de Guillaume Ribot. Durante doze anos, Lanzmann percorreu a Alemanha, a Polónia, Israel e os Estados Unidos sem um único dólar americano — recusado por financiadores que esperavam mensagens de esperança —, obstinado em fitar o que chamou de “sol negro do Shoah”. O making of, exibido em plataformas israelitas, revela um cineasta à beira da desistência, convencido de que o sofrimento sem sentido o engoliria. No entanto, foi dessa travessia pelo vazio que nasceu um dos documentários mais influentes do século XX.

Essa mesma obstinação em transformar a dor em linguagem ecoa noutras geografias. No Bangladesh, a coletânea Koyekti Nodi O Ekti Somudro (Alguns Rios e um Mar) resgata contos inéditos do escritor e cineasta Zahir Raihan, desaparecido em 1972. Publicados originalmente entre 1955 e 1970 em revistas, os textos expõem a exploração agrária, a fome e a vulnerabilidade das mulheres numa sociedade em convulsão. Numa das narrativas, um velho camponês lamenta ter gasto a vida a pagar uma dívida de trinta takas; noutra, o suicídio de uma adolescente de quinze anos desencadeia uma investigação policial que se transforma num labirinto de incertezas. A crítica literária em Dhaka sublinha que a redescoberta destas histórias amplia a compreensão de um autor cuja obra sempre se alimentou do pulsar político e íntimo do seu povo. Também a novela Ishwarkol, de Sadia Sultana, publicada em 2021, mergulha no trauma: a protagonista, abusada na infância por um familiar, percorre um caminho de reconciliação que só se completa quando, já adulta, consegue dizer ao marido “quero um filho no meu colo”.

A fragilidade como condição da beleza é o centro da obra de Yasunari Kawabata, o primeiro japonês a receber o Nobel de Literatura. “A vida humana é frágil como o orvalho da manhã”, escreveu, e a sua biografia parece confirmar a metáfora: órfão antes dos dez anos, perdeu pais, irmã e avós, e acabou por se suicidar em 1972, pouco depois da morte do amigo Yukio Mishima. Leitores em Lisboa e São Paulo reconhecem nos seus romances uma melancolia que não se rende ao desespero, mas que encontra na impermanência uma forma de eternidade. Essa mesma busca de sentido perante a perda atravessa o cinema argentino: em Un buda (2005), de Diego Rafecas, dois irmãos marcados pelo desaparecimento dos pais durante a ditadura militar procuram respostas — um na filosofia, o outro na prática zen. Rafecas afirmou que o seu filme não é sobre budismo, mas sobre “a forma como as aprendizagens chegam na vida; às vezes, as boas lições são amargas no começo”.

A gastronomia também se tornou palco dessa crueza. A série The Bear, cuja temporada final estreou em junho na Disney+, transformou a cozinha num espaço de alienação e beleza simultâneas, filmado como uma sala de emergências. O chef dinamarquês René Redzepi, do Noma, comparou a produção a The Wire, e o argentino Dante Liporace, do restaurante Mercado de Liniers, nota que hoje há comensais que se sentam à barra para o ver cozinhar, como se assistissem a uma “série ao vivo”. Do outro lado do Atlântico, o texano Evan LeRoy, estrela Michelin, recupera o respeito pelo animal inteiro e pelos cortes esquecidos, rejeitando a carne embalada que, nos anos 1950, afastou os pitmasters da tradição centenária dos imigrantes alemães e checos. A sua cozinha, que serve desde bisonte a codorniz, nasceu da saudade que sentiu da barbacoa enquanto estudava literatura inglesa — uma morriña que o fez regressar a Austin para reinventar um ofício.

Observadores culturais em Tel Aviv, Buenos Aires e Dhaka identificam um movimento comum: a recusa do adorno fácil. Seja no documentário de Lanzmann, nos contos póstumos de Raihan ou na cozinha nervosa de Carmy Berzatto, o que emerge é uma arte que não teme o desconforto. Resta a imagem do orvalho que se evapora com os primeiros raios de sol — e a certeza de que, enquanto houver quem se demore a olhar para ele, o nada continuará a transformar-se em narrativa.

Divergência — quem conta como
Eixo: Geopolitical critique vs. Factual detachment
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Os meios de comunicação venezuelanos e americanos não estão presentes neste cluster.
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A Argentina conta os mortos e reorganiza seu gabinete sem comentários geopolíticos.

Mecanismobanalizzazione

Ao inserir o terremoto venezuelano entre as notícias domésticas de rotina, o relatório normaliza o desastre e o despolitiza, fazendo-o parecer uma mera estatística.

Omissão

O relatório omite qualquer menção ao envolvimento dos EUA ou à luta política pelo controle da Venezuela, reduzindo o evento a um número e a uma mudança administrativa interna.

DistanciamentoPragmatismo
Imprensa europeia continental−0.60
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Os Estados Unidos são acusados de usar o terremoto como pretexto para fortalecer seu controle sobre a Venezuela, bloqueando qualquer oposição.

Mecanismodenuncia di egemonia

O artigo constrói uma narrativa de desígnio imperialista americano ao apresentar a viagem bloqueada como evidência de uma estratégia deliberada para controlar a Venezuela, usando um único evento para implicar uma conspiração maior.

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