
Funeral de Khamenei mobiliza milhões em Teerã sob apelos de vingança e ausência do sucessor
A procissão do líder supremo iraniano, morto em fevereiro por ataques dos EUA e Israel, transformou-se em demonstração de força do regime, enquanto o novo guia, Mojtaba Khamenei, permanece fora da cena pública.
A procissão fúnebre do antigo líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, percorreu nesta segunda-feira as principais artérias de Teerã, da praça Imam Hussein à praça Azadi, num trajeto de cerca de 10 quilómetros que as autoridades descreveram como a maior concentração popular da história recente do país. Khamenei foi morto a 28 de fevereiro, no primeiro dia da ofensiva militar conjunta dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, e o seu corpo esteve em câmara ardente durante dois dias na Grande Mosalla da capital. A televisão estatal iraniana mostrou dezenas de milhares de pessoas a comprimir-se ao longo do percurso, muitas vestidas de negro e empunhando bandeiras iranianas e estandartes vermelhos — símbolo, na tradição xiita, do apelo à vingança pelo sangue derramado.
Segundo relatos de agências internacionais, os enlutados exibiram cartazes com as frases “Matem Trump” e “Haverá sangue”, queimaram bandeiras dos EUA e do Reino Unido e lançaram pedras contra um painel com a imagem do presidente norte-americano. Do púlpito, o poeta Mohammad Rasouli declarou que “matar Trump é nossa responsabilidade”, sendo aplaudido pela multidão. Na perspetiva de Teerã, a mobilização em massa — para a qual foram disponibilizados transportes, alojamento e alimentação subsidiados — funciona como um referendo à República Islâmica e uma mensagem de resiliência dirigida aos “inimigos externos e críticos internos”, conforme afirmou um alto clérigo. Autoridades iranianas, incluindo o presidente Masoud Pezeshkian e o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, participaram nas cerimónias, ao lado de delegações de cerca de cem países, entre as quais a russa, chefiada pelo vice-presidente do Conselho de Segurança, Dmitri Medvedev.
A grande ausência foi Mojtaba Khamenei, filho e sucessor designado como novo líder supremo. Ferido no mesmo ataque que vitimou o pai, não é visto em público desde o início da guerra, e a sua não comparência alimenta especulações sobre a gravidade dos ferimentos e a sua capacidade de exercer a autoridade. Três outros filhos de Khamenei — Mostafa, Meysam e Masoud — marcaram presença nas orações fúnebres, o que tornou ainda mais notada a falta do herdeiro político. O ministro da Defesa israelita, Israel Katz, afirmou que Mojtaba está “marcado para morrer”, enquanto fontes iranianas citadas pela Reuters asseguram que ele continua a participar nas decisões de governo e que os ferimentos “estão a cicatrizar rapidamente”. Analistas europeus observam que a ausência prolongada do novo guia supremo, numa teocracia que sempre dependeu da exposição do líder, introduz uma fragilidade simbólica no topo do regime.
A procissão de Teerã é a etapa central de uma semana de exéquias que prosseguirá na terça-feira em Qom, centro do clero xiita, e na quarta-feira nas cidades santas iraquianas de Najaf e Karbala, antes do sepultamento, na quinta-feira, no santuário do Imã Reza, em Mashhad, cidade natal de Khamenei. O itinerário sublinha a dimensão transnacional da influência iraniana, num momento em que Teerã negoceia com Washington um acordo definitivo para pôr fim à guerra. As conversações indiretas, mediadas pelo Catar e pelo Paquistão, foram suspensas durante as cerimónias fúnebres e deverão ser retomadas na semana seguinte, com a expectativa de que as equipas técnicas discutam o programa nuclear iraniano, o alívio de sanções e a segurança no Estreito de Ormuz. Apesar da trégua em vigor, o tom das ruas de Teerã e as ameaças cruzadas entre Israel e o novo líder iraniano mantêm o processo de paz sob tensão permanente.
| Imprensa iraniana e afins | +1.00 | aligned |
|---|---|---|
| Imprensa atlântica / anglosfera | −0.40 | critical |
| Imprensa chinesa | 0.00 | neutral |
O Irã revolucionário celebra seu mártir: o povo se reúne em torno do líder caído, mostrando que a Revolução está viva.
A repetição do termo 'mártir' e a ênfase na participação em massa criam uma equivalência entre a legitimidade do regime e o afeto popular, transformando um evento de luto em uma reafirmação de poder.
É omitido o fato de que o sucessor, Mojtaba Khamenei, não apareceu em público, e que a guerra dizimou a liderança iraniana.
O Ocidente observa com ceticismo: a encenação não esconde a crise de sucessão e a dizimação da liderança.
Contrasta a narrativa oficial de unidade com a evidência da ausência do sucessor, criando um contraste que mina a credibilidade do regime.
É omitido o fato de que a multidão era realmente massiva e que muitos iranianos participaram espontaneamente, não apenas por ordem do regime.
A China observa com distanciamento pragmático: o Irã busca projetar estabilidade, mas a sucessão permanece incerta.
Um tom neutro e factual é adotado, relatando tanto a participação em massa quanto a incógnita do sucessor, sem julgamento, em linha com uma postura de não interferência.
É omitido o contexto detalhado da guerra e as críticas à liderança iraniana, para não comprometer as relações bilaterais.
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