
Do silêncio dos detetores ao algoritmo que orienta: a nova face dos exames e matrículas
Marrocos reduziu drasticamente as fraudes no baccalauréat com tecnologia de ponta, enquanto Argélia e Abu Dhabi apostam na inteligência artificial para guiar estudantes e funcionários, num movimento que reconfigura a relação entre cidadão e Estado.
No silêncio de uma sala de exames em Marrocos, o aparelho T3-SHIELD não emitiu qualquer alerta. Concebido para detetar sinais de redes celulares, wi-fi e bluetooth, o dispositivo registou, em média, apenas dois casos de fraude por unidade durante a última edição do baccalauréat. O contraste com o ano anterior é eloquente: quando apenas 12 equipamentos foram testados, cada um identificara cerca de 150 tentativas de batota. “Os alunos não entraram com os telemóveis nas salas, não copiaram este ano”, resumiu o ministro da Educação marroquino, Mohamed Saad Berrada, perante o parlamento. A generalização de dois mil detetores, acompanhada por 107 mil vigilantes e câmaras de segurança, transformou o exame num espaço de contenção tecnológica, onde o silêncio dos sensores se tornou a medida do sucesso.
A milhares de quilómetros dali, na Argélia, o silêncio dá lugar ao sussurro de um algoritmo. O ministro do Ensino Superior, Kamal Badari, anunciou a transição para uma “orientação inteligente” dos novos bacharéis. A plataforma digital de inscrições, que abre a 15 de julho, integra modelos de linguagem de grande escala e mineração de dados para analisar as preferências dos candidatos e calcular, em tempo real, a média ponderada exigida por cada especialidade. O sistema, descrito pelo ministro como “um cérebro que não dorme”, funciona 24 horas por dia, gerando respostas personalizadas numa linguagem natural. A par da inovação, o decreto ministerial introduz uma obrigação simbólica: os alunos colocados nas escolas do polo tecnológico de Sidi Abdallah terão de assinar um compromisso de serviço de cinco anos em entidades públicas ou económicas nacionais, caso venham a ser contratados após a licenciatura.
No Brasil, a tecnologia serve sobretudo a ampliação do acesso. As inscrições para o Prouni do segundo semestre de 2026 abriram a 7 de julho, exclusivamente através do Portal Único de Acesso ao Ensino Superior. O programa federal oferece bolsas integrais e parciais em instituições privadas, exigindo que o candidato tenha realizado o Enem de 2024 ou 2025, com média mínima de 450 pontos e nota superior a zero na redação. A classificação considera a melhor média obtida e a modalidade de concorrência — ampla ou reservada a pessoas com deficiência, indígenas, pardos e pretos. O cronograma é preciso: primeira chamada a 15 de julho, segunda a 5 de agosto, lista de espera no final de agosto. Para observadores em Brasília, a digitalização do processo seletivo consolida uma política de inclusão que, embora não recorra à inteligência artificial generativa, utiliza a escala da plataforma para cruzar milhões de dados e distribuir oportunidades.
A Europa segue um ritmo mais convencional, mas igualmente calendarizado. O Ministério da Universidade e da Investigação italiano publicou as datas das provas de admissão para os cursos de acesso programado em 2026-2027. A 11 de setembro, arrancam os exames para Ciências da Formação Primária; a 16 e 17 de setembro, as profissões sanitárias em italiano e inglês; a 30 de setembro, Medicina, Cirurgia e Medicina Veterinária em inglês. As seleções para arquitetura serão definidas autonomamente por cada universidade, desde que realizadas até ao final de setembro. A rigidez do calendário contrasta com a flexibilidade dos algoritmos argelinos, mas partilha com eles a ambição de ordenar o futuro de milhares de jovens através de um ecrã.
Em Abu Dhabi, a aposta na inteligência artificial extravasa o universo estudantil e invade o quotidiano do funcionário público. O programa “Funcionário Pioneiro” disponibilizou a plataforma Microsoft 365 Copilot a dezenas de milhares de trabalhadores governamentais, integrando a IA generativa nas ferramentas diárias de trabalho. A iniciativa insere-se no objetivo de tornar a capital dos Emirados a primeira administração totalmente baseada em IA até 2027. A plataforma “Tamm” já concentra mais de mil serviços numa única janela digital, e a ambição é que o funcionário se liberte das tarefas rotineiras para se dedicar ao pensamento estratégico. A imagem que fica é a de um ecrã onde um agente digital responde a um cidadão enquanto, noutra ponta do mundo, um estudante argelino preenche as suas doze opções de curso e um detector marroquino permanece mudo, à espera de um sinal que já não chega.
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O governo brasileiro abre as inscrições do Prouni, oferecendo bolsas para acesso à universidade.
A notícia é apresentada como um simples aviso de serviço, sem contextualização política, normalizando a intervenção estatal.
O Ministério da Universidade italiano fixa as datas para as provas de admissão aos cursos com numerus clausus.
A notícia é apresentada como um mero procedimento burocrático, sem ênfase ou crítica, normalizando o processo seletivo.
Os governos marroquino e argelino modernizam a educação com detectores antifraude e inteligência artificial, obtendo resultados mensuráveis.
A narrativa combina dados concretos (número de detectores, redução de fraudes) com um tom celebratório, criando uma simetria entre o problema e a solução tecnológica.
Abu Dhabi se posiciona como o primeiro governo de IA do mundo, treinando seus funcionários com ferramentas de ponta.
O governo é personificado como uma entidade ambiciosa e visionária, enquanto a tecnologia é apresentada como um meio de capacitar os humanos, não substituí-los.
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