
O grito global contra os templos da IA: comunidades do Japão ao Texas enfrentam a expansão dos centros de dados
Protestos em 42 estados americanos, mobilizações no Canadá e a indignação de uma nonagenária japonesa revelam uma resistência crescente aos custos ambientais e sociais da revolução da inteligência artificial.
Yoriko Kitagawa tem 94 anos e vive em Hino, um subúrbio de Tóquio. Diante da construção de um dos mais recentes centros de dados do Japão, a nonagenária não esconde a angústia. “Quanto mais descubro sobre ele, mais me preocupo”, disse à AFP. “É um projeto horrível.” A poucos metros da sua casa, erguem-se estruturas que, mesmo depois de terem a altura reduzida em um quinto, ainda dominarão a vizinhança e privarão algumas habitações de luz solar. O testemunho de Kitagawa ecoa um mal-estar que já não cabe nas fronteiras de um bairro ou de um país.
No sábado, aquela inquietação transformou-se num movimento coordenado à escala nacional nos Estados Unidos. O grupo conservador HumansFirst organizou 142 protestos em 42 estados, do Alasca à Florida, naquela que foi a primeira campanha nacional contra a expansão da infraestrutura de inteligência artificial. Em Kenilworth, Nova Jérsia, uma pequena localidade de 8.500 habitantes, a chuva não dispersou a multidão que se juntou diante do tribunal municipal. “Build community, not data centers” (“Construam comunidade, não centros de dados”), lia-se num cartaz. Outro avisava: “Pensam que isto é pressão? Esperem até não haver pressão na água.” Os manifestantes levaram cornetas, apitos e giz para marcar os passeios. Amy Kremer, antiga líder do Tea Party e cofundadora do HumansFirst, resumiu o sentimento: “O ‘boom’ dos centros de dados foi vendido como inevitável. Não é.”
A resistência não se esgota no ativismo de rua. No Canadá, um inquérito da Leger revelou que 81% dos inquiridos temem que os centros de dados disparem as faturas de eletricidade e 79% preocupam-se com os impactos ambientais, como o consumo de água e as emissões de gases com efeito de estufa. A província de Alberta concentra 92% da capacidade prevista para novos projetos, atraída por fontes de energia abundantes, mas a oposição já se fez ouvir de Vancouver a Hamilton. “Um centro de dados dedicado à IA é o avatar físico da IA”, explicou David Coletto, presidente da Abacus Data, sublinhando que os canadianos receiam cada vez mais o efeito “perturbador” da tecnologia nas suas vidas.
Enquanto as comunidades se mobilizam, as elites tecnológicas alertam para outra fratura: a da riqueza. Alex Karp, CEO da Palantir — empresa cuja capitalização bolsista ronda os 322 mil milhões de dólares e que mantém contratos com o Pentágono e com as Forças Armadas da Ucrânia — admitiu num podcast que a IA poderá multiplicar a sua fortuna pessoal por vinte, para perto de 300 mil milhões de dólares, enquanto muitos trabalhadores da classe média verão os seus rendimentos apenas duplicar. “O maior problema neste país é que [a IA] vai elevar o nível de vida da pessoa comum, mas as pessoas envolvidas provavelmente ficarão 10, 100 vezes mais ricas do que já são”, afirmou. Larry Fink, CEO da BlackRock, reforçou o diagnóstico em Davos: desde a queda do Muro de Berlim, a riqueza acumulou-se numa fatia demasiado estreita da sociedade. Na Rússia, a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Maria Zakharova, foi mais longe, classificando a Palantir como “uma das maiores ameaças ao mundo moderno”, uma “gigante militar” gerida por “fascistas declarados”.
Do outro lado da barricada, a indústria promete diálogo. Josh Levi, presidente da Data Center Coalition, assegurou que os operadores trabalham com as comunidades para “mitigar impactos negativos”. Mas os números toldam o otimismo: a Morgan Stanley estima que o custo de construir um gigawatt de capacidade de IA subiu cerca de 20%, num ciclo inflacionário em que as grandes tecnológicas — Google, Amazon, Microsoft e Meta — planeiam investir mais de 700 mil milhões de dólares este ano. Em Hino, a promotora Mitsui Fudosan desenhou uma “faixa verde de amortecimento” com árvores e um riacho para suavizar a presença do centro de dados. Mas para Yoriko Kitagawa, a sombra do edifício já se projeta sobre a sua casa. E, com ela, a de um futuro que muitos recusam aceitar sem perguntas.
| Imprensa atlântica / anglosfera | −0.20 | neutral |
|---|---|---|
| Imprensa latino-americana | −0.70 | critical |
The AI industry downplays environmental fears by comparing data centers to golf courses, while Canadian citizens mobilize against the impact on bills and the environment.
The golf analogy normalizes water consumption by shifting the debate to a seemingly harmless benchmark.
It omits the global scale of protests and direct testimonies from affected residents, such as those in Japan.
The Hino community strongly opposes the data center, calling it a horrible project that threatens their neighborhood.
The use of an elderly resident's testimony creates an emotional bond and makes the harm tangible.
It does not mention the industry's position or regulatory initiatives in the United States.
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