
Adoção de IA esbarra em custos e tensões geopolíticas, com reflexos no trabalho e na energia
Enquanto analistas projetam investimentos de US$ 1 trilhão sem alarme, empresas travam o uso para conter gastos, e profissionais correm para se adaptar.
O otimismo financeiro em torno da inteligência artificial contrasta com movimentos de contenção dentro das empresas. O J.P. Morgan e o Barclays estimam que o investimento global na tecnologia possa atingir US$ 1 trilhão nos próximos anos, sem que os mercados mostrem nervosismo. No entanto, grupos como Uber, Walmart e Cisco impuseram tetos ao consumo de tokens, após verem orçamentos anuais esgotados em poucos meses. A transição para tarifação por uso, adotada por laboratórios como OpenAI e Anthropic, expôs os custos reais de cada interação – um agente de IA pode consumir até 24 vezes mais tokens do que um chatbot, alerta o Goldman Sachs.
Paralelamente à pressão sobre as contas, a procura por energia ganha centralidade. Data centers, que sustentam o processamento de modelos, enfrentam restrições de fornecimento elétrico em polos como Hong Kong, onde o governo aposta em parcerias no Grande Delta para suprir défices. A reutilização de baterias de veículos elétricos para armazenamento de energia, testada em projetos como o da Redwood Materials em Nevada, desponta como alternativa para amortecer picos de consumo sem sobrecarregar as redes.
A vertente geopolítica acrescenta outra camada de complexidade. Modelos chineses de código aberto, como Qwen e DeepSeek, ganharam adoção nos EUA por serem mais baratos, mas um relatório da Booz Allen indica que, quando programados para cenários de uso americano, produzem código com mais vulnerabilidades – um possível comportamento de “agente adormecido”. Essa assimetria alimenta receios de segurança entre agências federais. Em contrapartida, a China beneficia de custos energéticos mais baixos e atrai delegações estrangeiras para tours tecnológicos que chegam a cobrar US$ 9.000 por visitas a fábricas de veículos elétricos e robótica.
No terreno laboral, a ansiedade é palpável. Profissionais do setor tecnológico relatam dedicar até 20 horas semanais extra-expediente para dominar novas ferramentas, enquanto autores de ficção admitem usar IA para pesquisa, ainda que sob tabu. Na Austrália, o avanço da tecnologia e a multiplicação de data centers convergem em um debate político que une populistas de direita e ecologistas de esquerda: Pauline Hanson promete regulação laboral, e os Verdes denunciam o impacto ambiental e a falta de benefícios para as comunidades locais. O governo trabalhista navega entre os cortes fiscais para estimular a construção habitacional – apoiados por 54% dos eleitores, segundo sondagens – e a necessidade de regular uma infraestrutura que promete redefinir empregos e territórios. O próximo teste será a tramitação das reformas fiscais no Senado australiano e a prestação de contas trimestrais das grandes tecnológicas, que devem refletir se a exuberância dos investimentos resiste à realidade dos custos.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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As empresas estão freando os gastos com IA, impondo limites e buscando modelos mais baratos. A farra inicial dá lugar à disciplina orçamentária, com custos elevados forçando um recuo pragmático diante da adoção desenfreada.
Hong Kong é posicionada como hub estratégico para financiamento de IA e aeroespacial, alavancando forças de mercado como a SpaceX. Apesar das restrições energéticas, empresas da China continental a tratam como campo de testes para expansão global, sinalizando ambição contínua em vez de retração.
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