
Chá, café e açúcar: os prazeres diários sob a lente da ciência global
Investigações da China à Rússia revelam que os benefícios destes consumos dependem da forma, da dose e do momento — e que os riscos ocultos exigem atenção.
Uma série de estudos recentes, conduzidos em diferentes continentes, está a refinar a compreensão sobre três pilares do prazer quotidiano à mesa: o chá, o café e os doces. Se, por um lado, se acumulam evidências de benefícios para a saúde, por outro, emergem alertas que ligam o modo de consumo a riscos que vão da contaminação química à perturbação do sono. A mensagem central que atravessa as investigações é inequívoca: a fronteira entre o aliado e o adversário está na moderação, na qualidade do produto e na sensibilidade individual.
No caso do chá, uma revisão da Academia Chinesa de Ciências Agrícolas, divulgada em Teerão, veio lembrar que a bebida milenar só é verdadeiramente benéfica quando consumida de forma adequada. Os investigadores alertam para o crescimento do chá engarrafado, muitas vezes carregado de adoçantes artificiais e conservantes, e sublinham a presença de resíduos de pesticidas, metais pesados e até microplásticos nas folhas. Embora os níveis detetados não representem um perigo imediato para o consumidor ocasional, o risco acumulado preocupa quem bebe várias chávenas por dia durante anos. Em mercados lusófonos como o brasileiro, onde o chá gelado industrializado ganha espaço, o aviso assume relevância particular.
O café, por sua vez, ilustra de forma exemplar a dualidade entre proteção e precaução. Na perspetiva espanhola, metabolitos como a trigonelina estão associados à proteção das células renais e à ativação de mecanismos antioxidantes que reduzem a gordura no fígado e travam a progressão para fibrose. Contudo, vozes da Rússia e da Indonésia introduzem notas de prudência. O médico russo Suraj Kukadia recomenda abandonar a bebida perante sintomas de insónia, ansiedade ou taquicardia, lembrando que a cafeína matinal pode permanecer no organismo até à noite. Já o gastroenterologista Serguei Vialov explica que o café em jejum estimula um reflexo gastrocólico normal, mas que a mesma urgência após uma refeição pode sinalizar patologias. Na Indonésia, o influenciador e médico Tirta Mandira Hudhi situa o limite seguro entre três e seis expressos diários, enquanto relatos locais associam o americano negro a desconforto gástrico em estômagos sensíveis. Para países como Portugal e Brasil, onde o expresso é um ritual social, o debate sobre quantidade e timing ganha contornos práticos.
Quanto aos doces, a literatura analisada no Irão é taxativa: o consumo ocasional de sobremesas não compromete a saúde, mas a ingestão elevada de açúcares adicionados está diretamente correlacionada com o aumento do risco cardiovascular. Os especialistas iranianos recomendam que os açúcares de adição não ultrapassem 10% das calorias diárias — cerca de doze colheres de chá numa dieta de duas mil calorias — e notam que as sobremesas são uma das principais fontes desse excedente. Ainda assim, admitem que uma pequena dose diária, inserida num padrão alimentar equilibrado, pode trazer benefícios psicológicos e ajudar a evitar compulsões. Em contextos lusófonos, onde a doçaria conventual portuguesa e as sobremesas lácteas brasileiras têm forte presença cultural, a recomendação convida a um equilíbrio entre tradição e consciência nutricional.
O quadro que emerge destas investigações é o de uma ciência cada vez mais atenta à complexidade dos hábitos quotidianos. O futuro próximo deverá trazer estudos mais finos sobre contaminantes emergentes, como os microplásticos no chá, e sobre a interação entre genética e resposta individual à cafeína e ao açúcar. Até lá, a palavra de ordem, de Brasília a Lisboa, de Maputo a Díli, é a mesma: informar-se, moderar e escutar o corpo.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Pesquisadores alertam que o chá, especialmente as versões engarrafadas prontas para beber, pode conter adoçantes artificiais, conservantes, resíduos de pesticidas, metais pesados e microplásticos que representam riscos à saúde. O consumo diário de doces aumenta o risco de doenças cardiovasculares; o consumo ocasional é aceitável, mas o tipo e a quantidade são fundamentais.
Estudos indicam que o consumo regular de café oferece benefícios significativos à saúde, como a proteção das células renais e o auxílio ao fígado no processamento da gordura acumulada. Compostos do café como a trigonelina ativam genes protetores e vias antioxidantes, reduzindo a probabilidade de doença hepática gordurosa não alcoólica.
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