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Sociedade & Culturasexta-feira, 19 de junho de 2026

Saberes locais e inovação contínua: a nova gramática da formação de jovens

De escolas brasileiras a universidades indonésias, iniciativas ancoradas no território e na colaboração duradoura preparam os jovens para desafios profissionais e ambientais.

Numa escola pública de Pernambuco, um professor explica o ciclo da água não com diagramas abstratos, mas a partir do riacho que corta a comunidade e das histórias dos mais velhos sobre as cheias. A cena, repetida em dezenas de salas de aula de seis estados brasileiros, pertence ao programa Movimento Sustentável, desenvolvido pela Tewá 225. Ao longo de ciclos semestrais, 144 educadores elaboraram 266 atividades que traduzem conceitos de sustentabilidade para a linguagem dos biomas e dos saberes tradicionais locais — um esforço que, segundo a diretora técnica Fernanda Mallak, só faz sentido “quando está conectado à realidade do território e à cultura que aquele estudante reconhece como dele”. As escolas que cumpriram as metas receberam investimentos de dois a cinco mil reais para implementar as ações, mas o programa esbarra em desafios estruturais: evasão, infraestrutura precária e alta rotatividade docente, terreno onde qualquer iniciativa que ignore a sobrecarga dos profissionais “tende a não se sustentar”, alerta Mallak.

Essa busca por enraizar a aprendizagem no chão local não é um impulso isolado. Em Teresópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, a prefeitura lançou o Prêmio Estudante Inovador, que convoca alunos da rede municipal a propor soluções para melhorar a qualidade de vida na cidade — da mobilidade urbana à agricultura, da robótica à inclusão social. A iniciativa, com cerimônia de premiação prevista para o segundo semestre de 2026, mobiliza secretarias de Educação e de Ciência e Tecnologia em parceria com o ecossistema de inovação Inova Teresa. Do outro lado da cordilheira, em Tucumán, na Argentina, empresários locais criaram o programa Elevate, um sistema de mentorias em que empreendedores visitam escolas secundárias e acompanham os jovens na criação de microempreendimentos. “O mentor funciona como um espelho”, explica a coordenadora María José Iparraguirre, da Fundación León: “conta sua história de vida, seus erros e aprendizagens, e ajuda a que os rapazes se façam perguntas”. Na Indonésia, a Pradita University levará o conceito de living laboratory para o curso de Turismo a partir de setembro de 2026, integrando a rotina hoteleira ao currículo para que os estudantes “não apenas aprendam teoria na sala de aula, mas sintam diretamente como a indústria funciona no dia a dia”, nas palavras da presidente da fundação mantenedora, Aida Halim.

O que une essas experiências é uma convicção partilhada por observadores latino-americanos e asiáticos: a de que a preparação para o mundo do trabalho e para os desafios ambientais exige uma costura fina entre o conhecimento formal e a inteligência do lugar. Essa mesma lógica aparece, em escala institucional, na trajetória de São José dos Campos, escolhida para liderar a Rede Latino-Americana de Cidades Inteligentes vinculada à FLACMA. A cerimônia de posse, realizada em 16 de junho durante o Smart City Business Brazil Congress, em São Paulo, não celebrou uma solução tecnológica pontual, mas “a capacidade de um governo local de planejar, sustentar e articular ações de forma contínua ao longo do tempo”, conforme sublinhou o secretário-geral da federação, Fernando Arnaiz Ramos. O município é o único do Brasil com certificação ABNT NBR ISO de Cidade Inteligente, Resiliente e Sustentável no nível Platina, mantida em auditorias anuais desde 2022, e tornou-se uma das primeiras cidades do mundo a atender à norma ISO 37125, baseada em 133 indicadores ESG. Para analistas brasileiros, o caso de São José dos Campos demonstra que ecossistemas de inovação duradouros dependem menos de eventos disruptivos e mais da colaboração paciente entre universidades, centros de pesquisa, empresas e poder público.

A mesma gramática da prevenção e da inteligência aplicada ao território emerge em iniciativas de saúde pública. Em Tlaxcala, no México, a governadora Lorena Cuéllar Cisneros supervisionou a construção do Centro de Inteligencia en Salud, projetado para monitorizar em tempo real surtos epidemiológicos, coordenar a ocupação hospitalar e vigiar a qualidade do ar e dos corpos de água em colaboração com a Procuraduría de Protección al Ambiente. “Tlaxcala marcará um precedente a nível nacional”, afirmou o secretário de Saúde, Rigoberto Zamudio Meneses. No estado de Tamaulipas, os Corredores de la Salud 2026 percorrem dez municípios oferecendo consultas, vacinação, exames preventivos de câncer de mama e inscrição no IMSS Bienestar, numa estratégia que o governador Américo Villarreal Anaya define como um esforço para que “ninguém fique para trás no acesso à saúde”.

Ao final, o que se desenha é um mapa de respostas que recusam a importação de fórmulas abstratas. Da escola pernambucana que lê o ciclo da água no riacho local ao laboratório vivo indonésio que transforma a receção de um hotel em sala de aula, da mentoría tucumana que põe um empresário diante de adolescentes ao centro de inteligência sanitária que cruza dados ambientais e epidemiológicos, a constante é uma aposta na paciência e na escuta do território. Resta a imagem de um estudante de Teresópolis, diante de um protótipo ainda tosco, explicando a uma banca de avaliadores como a sua ideia pode tornar a cidade mais respirável — e, nesse gesto, ensaiando uma cidadania que não separa o conhecimento da responsabilidade pelo lugar onde se vive.

Como a mesma história é contada em outros lugares.

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Stampa latinoamericana/ mercato
trionfopragmatismo

A América Latina vive uma onda de inovação de base, com escolas, sistemas de saúde e governos locais fincando raízes profundas no território. Programas de educação ambiental, cidades inteligentes e centros de saúde pública mostram que o desenvolvimento sustentável pode nascer da colaboração entre comunidades, universidades e empresas. A região se posiciona como modelo global de crescimento inclusivo enraizado nos saberes locais.

Stampa cinese
scetticismoindignazione

Enquanto a América Latina celebra a inovação local em saúde e educação, uma voz crítica alerta contra políticas que permanecem confinadas a comunidades indígenas ou remotas. O verdadeiro progresso exige integração sistêmica, não apenas projetos isolados enraizados no território. A ênfase nas 'raízes' corre o risco de negligenciar a necessidade de reformas estruturais em escala nacional.

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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Saberes locais e inovação contínua: a nova gramática da formação de jovens

De escolas brasileiras a universidades indonésias, iniciativas ancoradas no território e na colaboração duradoura preparam os jovens para desafios profissionais e ambientais.

Numa escola pública de Pernambuco, um professor explica o ciclo da água não com diagramas abstratos, mas a partir do riacho que corta a comunidade e das histórias dos mais velhos sobre as cheias. A cena, repetida em dezenas de salas de aula de seis estados brasileiros, pertence ao programa Movimento Sustentável, desenvolvido pela Tewá 225. Ao longo de ciclos semestrais, 144 educadores elaboraram 266 atividades que traduzem conceitos de sustentabilidade para a linguagem dos biomas e dos saberes tradicionais locais — um esforço que, segundo a diretora técnica Fernanda Mallak, só faz sentido “quando está conectado à realidade do território e à cultura que aquele estudante reconhece como dele”. As escolas que cumpriram as metas receberam investimentos de dois a cinco mil reais para implementar as ações, mas o programa esbarra em desafios estruturais: evasão, infraestrutura precária e alta rotatividade docente, terreno onde qualquer iniciativa que ignore a sobrecarga dos profissionais “tende a não se sustentar”, alerta Mallak.

Essa busca por enraizar a aprendizagem no chão local não é um impulso isolado. Em Teresópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, a prefeitura lançou o Prêmio Estudante Inovador, que convoca alunos da rede municipal a propor soluções para melhorar a qualidade de vida na cidade — da mobilidade urbana à agricultura, da robótica à inclusão social. A iniciativa, com cerimônia de premiação prevista para o segundo semestre de 2026, mobiliza secretarias de Educação e de Ciência e Tecnologia em parceria com o ecossistema de inovação Inova Teresa. Do outro lado da cordilheira, em Tucumán, na Argentina, empresários locais criaram o programa Elevate, um sistema de mentorias em que empreendedores visitam escolas secundárias e acompanham os jovens na criação de microempreendimentos. “O mentor funciona como um espelho”, explica a coordenadora María José Iparraguirre, da Fundación León: “conta sua história de vida, seus erros e aprendizagens, e ajuda a que os rapazes se façam perguntas”. Na Indonésia, a Pradita University levará o conceito de living laboratory para o curso de Turismo a partir de setembro de 2026, integrando a rotina hoteleira ao currículo para que os estudantes “não apenas aprendam teoria na sala de aula, mas sintam diretamente como a indústria funciona no dia a dia”, nas palavras da presidente da fundação mantenedora, Aida Halim.

O que une essas experiências é uma convicção partilhada por observadores latino-americanos e asiáticos: a de que a preparação para o mundo do trabalho e para os desafios ambientais exige uma costura fina entre o conhecimento formal e a inteligência do lugar. Essa mesma lógica aparece, em escala institucional, na trajetória de São José dos Campos, escolhida para liderar a Rede Latino-Americana de Cidades Inteligentes vinculada à FLACMA. A cerimônia de posse, realizada em 16 de junho durante o Smart City Business Brazil Congress, em São Paulo, não celebrou uma solução tecnológica pontual, mas “a capacidade de um governo local de planejar, sustentar e articular ações de forma contínua ao longo do tempo”, conforme sublinhou o secretário-geral da federação, Fernando Arnaiz Ramos. O município é o único do Brasil com certificação ABNT NBR ISO de Cidade Inteligente, Resiliente e Sustentável no nível Platina, mantida em auditorias anuais desde 2022, e tornou-se uma das primeiras cidades do mundo a atender à norma ISO 37125, baseada em 133 indicadores ESG. Para analistas brasileiros, o caso de São José dos Campos demonstra que ecossistemas de inovação duradouros dependem menos de eventos disruptivos e mais da colaboração paciente entre universidades, centros de pesquisa, empresas e poder público.

A mesma gramática da prevenção e da inteligência aplicada ao território emerge em iniciativas de saúde pública. Em Tlaxcala, no México, a governadora Lorena Cuéllar Cisneros supervisionou a construção do Centro de Inteligencia en Salud, projetado para monitorizar em tempo real surtos epidemiológicos, coordenar a ocupação hospitalar e vigiar a qualidade do ar e dos corpos de água em colaboração com a Procuraduría de Protección al Ambiente. “Tlaxcala marcará um precedente a nível nacional”, afirmou o secretário de Saúde, Rigoberto Zamudio Meneses. No estado de Tamaulipas, os Corredores de la Salud 2026 percorrem dez municípios oferecendo consultas, vacinação, exames preventivos de câncer de mama e inscrição no IMSS Bienestar, numa estratégia que o governador Américo Villarreal Anaya define como um esforço para que “ninguém fique para trás no acesso à saúde”.

Ao final, o que se desenha é um mapa de respostas que recusam a importação de fórmulas abstratas. Da escola pernambucana que lê o ciclo da água no riacho local ao laboratório vivo indonésio que transforma a receção de um hotel em sala de aula, da mentoría tucumana que põe um empresário diante de adolescentes ao centro de inteligência sanitária que cruza dados ambientais e epidemiológicos, a constante é uma aposta na paciência e na escuta do território. Resta a imagem de um estudante de Teresópolis, diante de um protótipo ainda tosco, explicando a uma banca de avaliadores como a sua ideia pode tornar a cidade mais respirável — e, nesse gesto, ensaiando uma cidadania que não separa o conhecimento da responsabilidade pelo lugar onde se vive.

Divergência das fontes

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Quanto as fontes relatam os mesmos fatos de maneira diferente.

Como se dividem

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Como a mesma história é contada em outros lugares.

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Stampa latinoamericana/ mercato
trionfopragmatismo

A América Latina vive uma onda de inovação de base, com escolas, sistemas de saúde e governos locais fincando raízes profundas no território. Programas de educação ambiental, cidades inteligentes e centros de saúde pública mostram que o desenvolvimento sustentável pode nascer da colaboração entre comunidades, universidades e empresas. A região se posiciona como modelo global de crescimento inclusivo enraizado nos saberes locais.

Stampa cinese
scetticismoindignazione

Enquanto a América Latina celebra a inovação local em saúde e educação, uma voz crítica alerta contra políticas que permanecem confinadas a comunidades indígenas ou remotas. O verdadeiro progresso exige integração sistêmica, não apenas projetos isolados enraizados no território. A ênfase nas 'raízes' corre o risco de negligenciar a necessidade de reformas estruturais em escala nacional.

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