
Cafeína: dose certa melhora desempenho e protege fígado, mas excesso cobra fatura
Meta-análise quantifica benefício atlético e estudo com 355 mil pessoas associa café a menor risco hepático, enquanto especialistas alertam para o esgotamento na era digital.
Uma meta-análise de 48 estudos, publicada na revista Nutrients, estabeleceu que a dose ideal de cafeína para melhorar o rendimento em provas de resistência como ciclismo, corrida e natação se situa entre 3 e 6 miligramas por quilo de peso corporal, consumida 45 a 60 minutos antes do exercício. Nesse intervalo, atletas registaram tempos, em média, mais de 2% mais rápidos. Paralelamente, uma investigação com 354.957 participantes do UK Biobank, acompanhados durante 13 anos e publicada na Clinical Gastroenterology and Hepatology, revelou que o consumo regular de café está associado a um risco 32% menor de cirrose, 47% menor de cancro do fígado e 42% menor de morte por doenças hepáticas, com benefícios já visíveis a partir de uma a duas chávenas diárias e mais pronunciados entre três e quatro.
O efeito da cafeína decorre do bloqueio temporário dos recetores de adenosina, molécula que sinaliza o cansaço ao cérebro. Esse mecanismo explica tanto o aumento da vigília como o chamado “síndrome do ressalto do café”, descrito pela dietista russa Tatiana Solntseva: quando a cafeína é eliminada, após quatro a cinco horas em média, a fadiga acumulada regressa de forma súbita, podendo manifestar-se em apenas duas horas nos metabolizadores rápidos. A interrupção abrupta do consumo desencadeia sintomas de abstinência — cefaleias, irritabilidade e dificuldade de concentração — que atingem o pico nas primeiras 48 horas e podem prolongar-se até nove dias, segundo observadores do mundo árabe.
Este ciclo de estimulação e esgotamento insere-se num contexto mais amplo de fadiga crónica. Especialistas da Universidade Nacional de La Plata, na Argentina, advertem que a hiperconectividade e a diluição das fronteiras entre trabalho e vida pessoal alimentam uma “era do cansaço”, com impacto particular sobre as mulheres, que acumulam emprego e cuidados. A psiquiatra Silvana Pujol sublinha que o uso de ecrãs antes de dormir perturba a produção de melatonina, cronificando a fadiga. Em contraste clínico, a narcolepsia — distúrbio neurológico que afeta uma em cada duas mil pessoas, segundo a Universidade de Harvard — provoca sonolência diurna extrema e episódios de fraqueza muscular, exigindo diagnóstico e tratamento especializado.
Para a população em geral, as recomendações convergem: iniciar com doses baixas de cafeína, próximas de 200 miligramas para um adulto de 70 quilos, e ajustar conforme a resposta individual, evitando ultrapassar 9 miligramas por quilo, limiar a partir do qual surgem ansiedade, taquicardia e tremores sem ganhos adicionais. A redução gradual do consumo, a hidratação adequada e a prática de sestas de 10 a 20 minutos, sugeridas por fontes indonésias, ajudam a mitigar a sonolência diurna. A comunidade científica aguarda agora ensaios clínicos que confirmem a relação causal entre o café e a proteção hepática, para além das associações observacionais.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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