
Biden chama Trump de 'perdedor' e critica projetos de vaidade em Washington
Num discurso em Maryland, o ex-presidente dos EUA atacou o sucessor, apontando a renovação falhada do espelho de água e outros projetos como símbolos de narcisismo e corrupção.
O ex-presidente dos Estados Unidos Joe Biden qualificou o seu sucessor, Donald Trump, de “perdedor” durante um evento de angariação de fundos do Partido Democrata em Hanover, Maryland, no sábado. A intervenção, que assinalou o segundo aniversário do debate televisivo que inviabilizou a sua recandidatura, centrou-se nos projetos de renovação urbana promovidos por Trump em Washington, com destaque para a recuperação do espelho de água do Lincoln Memorial. A obra, orçada em 14,7 milhões de dólares, tornou-se alvo de controvérsia nacional após a proliferação de algas e a turvação da água, que a administração atribuiu a atos de vandalismo da “esquerda radical”, enquanto residentes e visitantes descrevem o local como um “verdadeiro pântano”.
Na perspetiva de Washington, o discurso de Biden representa uma escalada retórica invulgar, ao enumerar o que descreveu como “projetos de vaidade” do atual presidente: a demolição da Ala Este da Casa Branca para construir um salão de baile, a aposição do seu nome no Kennedy Center — posteriormente removida por ordem judicial —, a edificação de um arco triunfal em sua honra e a contratação de um funcionário privado para a manutenção do espelho de água. A imprensa norte-americana reporta que Biden acusou ainda a administração Trump de corrupção “numa escala nunca vista na história americana”, de tentar indemnizar condenados pelo assalto ao Capitólio e de privilegiar o presidente russo Vladimir Putin em detrimento dos aliados da NATO. Trump, por seu lado, reagiu na rede Truth Social apelidando Biden de “político corrupto” e recorrendo à alcunha “sleepy Joe”, sem responder diretamente às acusações.
Analistas europeus observam que a controvérsia em torno do espelho de água cristaliza críticas mais amplas à governação de Trump, cujo custo do salão de baile ascende a 400 milhões de dólares, justificado oficialmente por razões de segurança nacional e de hospitalidade de Estado. A dimensão pessoal do confronto foi ampliada pelo desafio lançado por Hunter Biden, filho do ex-presidente, a Donald Trump Jr. para um combate de artes marciais mistas, acusando o atual presidente de “dessacralizar” a Casa Branca ao organizar eventos desportivos no local. Na imprensa brasileira, o episódio é enquadrado como mais um capítulo da polarização que marca a política externa dos EUA, com reflexos na perceção da estabilidade institucional do país.
O regresso de Biden à vida pública ocorre num momento de fragilidade: uma sondagem da CNN situa a sua popularidade em 30%, o valor mais baixo da sua carreira, e o próprio ex-presidente enfrenta um tratamento contra um cancro da próstata agressivo. Setores do Partido Democrata, citados pela imprensa norte-americana, manifestam desconforto com a sua exposição, considerando que reabre feridas da derrota de 2024. O discurso de Maryland insere-se, contudo, numa estratégia de apoio a candidatos democratas para as eleições intercalares de 2026, cujo desfecho poderá redefinir o equilíbrio de forças no Congresso e o legado político de Biden.
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