
Alemanha reforma subsídio parental enquanto cresce o debate global sobre tempo em família e leitura infantil
A proposta de Berlim de encurtar o Elterngeld e aumentar a quota paterna coincide com iniciativas russas de redução laboral e com alertas na Suécia, Reino Unido e Irão sobre o declínio da leitura e o stress parental.
O Ministério da Família alemão apresentou um projeto de lei que reduz a duração do subsídio parental (Elterngeld) de 14 para 12 meses e reserva três meses obrigatórios para cada progenitor, em vez dos atuais dois. A medida, ainda em fase de concertação interministerial, visa uma poupança anual de 500 milhões de euros e, segundo o ministério, pretende criar incentivos para uma distribuição mais equilibrada dos cuidados. O valor mínimo mensal subiria de 300 para 330 euros e o máximo de 1800 para 1900 euros, mas a oposição de esquerda e os Verdes criticam a lógica de compensar a redução do período com um ligeiro aumento das prestações. A líder parlamentar do Die Linke, Heidi Reichinnek, classificou a fórmula como “absurda”, enquanto a vice-líder dos Verdes, Misbah Khan, alertou que a mudança poderá aumentar a dependência financeira das mães e agravar as interrupções nas suas carreiras.
Na Rússia, um grupo de 13 deputados da Duma, incluindo Leonid Slutski, propôs alargar as garantias laborais para progenitores com filhos menores. O projeto prevê a redução da semana de trabalho de 40 para 39 horas sem corte salarial e a atribuição de um dia extra remunerado por trimestre a quem tiver dois ou mais filhos. A iniciativa é justificada pelos seus autores como um contributo para a “estabilidade demográfica” e para aliviar a sobrecarga dos trabalhadores com responsabilidades familiares, num contexto em que Moscovo procura travar a queda da natalidade.
Na Suécia, o debate centra-se na relação entre o tempo passado em família e o desenvolvimento infantil. A fundação Lärarstiftelsen revelou que, embora oito em cada dez pais leiam em voz alta para os filhos pequenos, a prática diminui a partir dos quatro anos, e apenas metade das crianças de nove anos ouve leituras frequentes. Paralelamente, multiplicam-se nas redes sociais e na imprensa sueca relatos de pais — sobretudo mães — que descrevem as férias escolares como um período de stress extremo. Comentadores em Estocolmo associam este fenómeno ao facto de 90% das crianças entre os dois e os cinco anos estarem inscritas em creches e de os pais passarem, em média, apenas três horas diárias com os filhos, o que torna a convivência prolongada uma experiência desgastante para muitas famílias.
O recuo da leitura entre adolescentes é também um foco de preocupação no Reino Unido e na Irlanda, onde um relatório da empresa Renaissance, baseado em 23 milhões de testes de compreensão leitora, mostra que a maioria dos rapazes entre os 11 e os 14 anos lê livros de nível escolar primário, como a série “Diário de um Banana”. Menos de 10% dos rapazes dos 14 aos 16 anos leem diariamente por prazer. A análise, repercutida no Irão pelo portal Khabar Online, sublinha que o vício em ecrãs e o recurso a resumos gerados por inteligência artificial estão a encurtar a capacidade de atenção e a impedir a progressão para leituras mais exigentes. O Instituto Nacional de Literacia britânico fala num “sinal de alarme” e defende que é preciso guiar os jovens para além dos autores familiares, sob risco de estagnação cognitiva.
Na perspetiva de analistas em Lisboa e em Brasília, estas discussões convergem para um questionamento mais amplo sobre o papel do Estado e das famílias na primeira infância e na adolescência. A reforma alemã, a exemplo de medidas já adotadas ou debatidas em países nórdicos e na Europa do Leste, procura conciliar sustentabilidade orçamental com incentivos à corresponsabilidade parental. O projeto de lei segue agora para o parlamento, enquanto na Rússia a proposta aguarda agendamento na Duma e, no espaço lusófono, ecoam os alertas sobre a necessidade de políticas integradas de literacia familiar e de apoio à parentalidade.
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