
Acordo EUA-Irão reabre Ormuz e lança negociação nuclear sob tensão
Memorando de entendimento suspende hostilidades e inicia conversações técnicas, mas divergências sobre programa nuclear e uso de ativos iranianos mantêm cenário frágil.
A assinatura digital de um memorando de entendimento entre os presidentes Donald Trump e Masoud Pezeshkian suspendeu as hostilidades que marcaram mais de três meses de confronto no Médio Oriente e reabriu o Estreito de Ormuz, permitindo a saída recorde de 19 milhões de barris de petróleo num único dia, segundo dados citados pela Casa Branca. O acordo, descrito por Washington como um quadro de 14 pontos, levou ao levantamento do bloqueio naval norte-americano e à cessação dos combates em todas as frentes, incluindo o Líbano, estabelecendo um período de 60 dias de negociações que se iniciam com conversações técnicas a 30 de junho.
Do lado norte-americano, o Presidente Trump afirma que os Estados Unidos negociam «de uma posição de força pura» e que o Irão «foi completamente derrotado», discurso que, segundo analistas em Washington, visa consolidar internamente a imagem de uma vantagem estratégica. A administração insiste em três exigências centrais: a renúncia total ao enriquecimento de urânio, a entrega dos materiais enriquecidos à Agência Internacional de Energia Atómica e a utilização dos ativos iranianos descongelados — cerca de 12 mil milhões de dólares, de acordo com a imprensa de Teerão — exclusivamente para a compra de produtos agrícolas, equipamento médico e outros bens humanitários norte-americanos. Contudo, o porta-voz do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, rejeitou publicamente a ideia de gastar esses fundos em produtos dos EUA, sublinhando a resistência de Teerão a um mecanismo que considera limitativo da sua soberania financeira.
Na perspetiva de Teerão, o Irão reivindica a gestão partilhada do Estreito de Ormuz com Omã e o direito de cobrar taxas de passagem, posição que contrasta com a narrativa de Washington sobre a abertura unilateral da via marítima. Além disso, fontes próximas das negociações indicam que uma parte significativa do memorando consiste em «acordos de cavalheiros» cujos detalhes permanecem confidenciais, o que, para observadores europeus, introduz um elemento de incerteza sobre a durabilidade do compromisso. A própria administração norte-americana está dividida: enquanto o secretário de Estado, Marco Rubio, e o Pentágono expressam ceticismo quanto à vontade iraniana de ceder no dossier nuclear, outros conselheiros presidenciais apoiam o documento, revelando fissuras que podem condicionar a fase negocial.
O quadro atual ecoa o Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA) de 2015, que limitava o enriquecimento a 3,67% e o stock de urânio a 300 quilos, e do qual os EUA se retiraram em 2018 durante o primeiro mandato de Trump. Para que qualquer novo acordo supere o anterior, alertam analistas em Bruxelas, seria necessário obter concessões iranianas que Teerão nunca fez, como o abandono permanente do enriquecimento. O dossier permanece, assim, numa «trégua temporária», nas palavras de diplomatas ouvidos em Mascate, com o risco de regresso à lógica militar se as conversações sobre o programa nuclear e a desmilitarização do Golfo não progredirem. O Congresso norte-americano, entretanto, foi chamado a aprovar um pedido adicional de 87,6 mil milhões de dólares, encontrando forte oposição democrata e divisões entre republicanos, enquanto o Senado já aprovou uma resolução para suspender o conflito.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A imprensa russa relata de forma neutra as declarações de Trump, registrando sua alegação de negociar a partir de uma posição de força, a abertura do Estreito de Ormuz e a perspectiva de o Irã se tornar um mercado para produtos agrícolas dos EUA. Nenhuma avaliação é oferecida.
A imprensa indiana destaca a retórica agressiva de Trump, citando sua ostentação de que os EUA 'deram uma surra' no Irã e enquadrando as negociações como resultado da derrota de Teerã. A reportagem carrega um tom de alarme com a linguagem belicosa.
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