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Mídia e Entretenimentoterça-feira, 30 de junho de 2026

A voz de Gardel num Minion: o passado como matéria-prima de Hollywood

Enquanto ‘Minions & Monstros’ estreia globalmente, o realizador argentino Andy Muschietti explica como transformou um cineasta dos anos 1920 num personagem saído do tango e da infância portenha.

Na penumbra de um estúdio de dobragem, o realizador de ‘It’ inclinou-se para o microfone e deixou escapar uma voz que não era a sua. Andy Muschietti, argentino criado entre Vicente López e Acassuso, não imitou apenas o original de Christoph Waltz. Inspirou-se em Carlos Gardel, no lunfardo das rádios antigas e numa figura recôndita da sua memória: Pucho, o ajudante do Professor Neurus na série animada ‘Hijitus’, de Manuel García Ferré. “Disse: vamos fazer um argentino dos anos 20”, contou mais tarde. O resultado é Max, um realizador de monóculo que surge em ‘Minions & Monstros’ a falar como se tivesse saído de um tango de 1925.

A cena pertence à nova longa-metragem da Illumination, que chega esta semana aos cinemas de todo o mundo, incluindo salas brasileiras e portuguesas. O filme recua até à Hollywood dos anos 1920, onde os Minions se tornam estrelas do cinema mudo antes de desencadearem um caos com monstros saídos de um livro de feitiços. Pierre Coffin, realizador e voz original das criaturas amarelas, descreveu o projeto como “uma carta de amor à era de ouro de Hollywood”, repleta de citações a Buster Keaton, Harold Lloyd e Tex Avery. Em entrevistas, Coffin aproveitou para criticar a inteligência artificial, afirmando que “proclamam-na como ‘o futuro’, mas entretanto destrói tudo o que toca” – um comentário que, na perspetiva de analistas europeus, ecoa o desconforto de uma indústria que prefere revisitar o passado a arriscar o novo.

‘Minions & Monstros’ não é um caso isolado. A mesma semana vê a estreia de ‘Elle’, prequela de ‘Legalmente Loira’ que recua a 1995 para mostrar a adolescência da protagonista em Seattle, e de ‘Enola Holmes 3’, onde Millie Bobby Brown veste um vestido de noiva para perseguir vilões enquanto Sherlock desaparece. Observadores em Lisboa e São Paulo notam que a chamada “precuelite” – a multiplicação de histórias que recuam no tempo em vez de avançar – se tornou o motor de plataformas como Prime Video e Netflix. O artigo do diário espanhol ‘El Día’ sublinha que a lógica é simples: personagens conhecidos geram uma “cumplicidade afetuosa” que nenhuma história original consegue igualar, e o passado oferece “terreno virgem” sem forçar narrativas já encerradas.

A forma como estas franquias se adaptam aos mercados locais revela camadas adicionais de nostalgia. A participação de Muschietti na versão hispano-americana de ‘Minions & Monstros’ insere-se numa estratégia que, segundo fontes da indústria no Brasil, se repete com frequência: convidar figuras reconhecidas para as dobragens, ancorando o produto numa familiaridade cultural que vai além da tradução. O sotaque tanguero de Max, que para um espectador argentino evoca imediatamente Gardel e a cultura portenha, transforma um personagem secundário num eco de uma memória coletiva. Em ‘Enola Holmes 3’, por sua vez, o tom mais “maduro e assustador”, como o descreveu Henry Cavill, procura acompanhar o envelhecimento da audiência que cresceu com a saga.

No final, a imagem que perdura é a de um Minion mudo, a gesticular num set de filmagem dos anos 20, enquanto um realizador argentino lhe empresta, a milhares de quilómetros e quase um século depois, a voz de um cantor de tango que nunca chegou a ver um desenho animado. É uma sobreposição de tempos e geografias que talvez explique melhor do que qualquer análise porque é que Hollywood continua a escavar o passado: não apenas por segurança comercial, mas porque cada regresso permite que novas culturas imprimam a sua própria memória afetiva sobre as ruínas de uma era que nunca existiu exatamente assim.

Como a mesma história é contada em outros lugares.

2 grupos editoriais · 2 idiomas

37%
TomTemperaturaFocoPosicionamentoHorizonte
Imprensa latino-americanaImprensa europeia continental
Imprensa latino-americana/ Mercado
TriunfoPragmatismo

O novo filme dos Minions traz o diretor argentino Andy Muschietti como dublador, com um sotaque que lembra Carlos Gardel. Isso é celebrado como um momento de orgulho para o cinema argentino, mostrando como o talento local pode deixar uma marca única em uma franquia global de Hollywood. O prequel se insere em uma onda de extensões de franquias, mas é a conexão argentina que o torna noticiável.

Imprensa europeia continental/ Mediterrânea
AlarmeCeticismo

Em uma entrevista, o diretor dos Minions, Pierre Coffin, expressou forte ceticismo em relação à inteligência artificial, alertando que, embora seja promovida como o futuro, está destruindo tudo o que toca. Ele enfatizou o valor insubstituível da criatividade humana na animação, apresentando o novo filme como uma homenagem à Hollywood clássica. As declarações surgem em meio à crescente adoção de ferramentas de IA pela indústria.

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terça-feira, 30 de junho de 2026

A voz de Gardel num Minion: o passado como matéria-prima de Hollywood

Enquanto ‘Minions & Monstros’ estreia globalmente, o realizador argentino Andy Muschietti explica como transformou um cineasta dos anos 1920 num personagem saído do tango e da infância portenha.

Na penumbra de um estúdio de dobragem, o realizador de ‘It’ inclinou-se para o microfone e deixou escapar uma voz que não era a sua. Andy Muschietti, argentino criado entre Vicente López e Acassuso, não imitou apenas o original de Christoph Waltz. Inspirou-se em Carlos Gardel, no lunfardo das rádios antigas e numa figura recôndita da sua memória: Pucho, o ajudante do Professor Neurus na série animada ‘Hijitus’, de Manuel García Ferré. “Disse: vamos fazer um argentino dos anos 20”, contou mais tarde. O resultado é Max, um realizador de monóculo que surge em ‘Minions & Monstros’ a falar como se tivesse saído de um tango de 1925.

A cena pertence à nova longa-metragem da Illumination, que chega esta semana aos cinemas de todo o mundo, incluindo salas brasileiras e portuguesas. O filme recua até à Hollywood dos anos 1920, onde os Minions se tornam estrelas do cinema mudo antes de desencadearem um caos com monstros saídos de um livro de feitiços. Pierre Coffin, realizador e voz original das criaturas amarelas, descreveu o projeto como “uma carta de amor à era de ouro de Hollywood”, repleta de citações a Buster Keaton, Harold Lloyd e Tex Avery. Em entrevistas, Coffin aproveitou para criticar a inteligência artificial, afirmando que “proclamam-na como ‘o futuro’, mas entretanto destrói tudo o que toca” – um comentário que, na perspetiva de analistas europeus, ecoa o desconforto de uma indústria que prefere revisitar o passado a arriscar o novo.

‘Minions & Monstros’ não é um caso isolado. A mesma semana vê a estreia de ‘Elle’, prequela de ‘Legalmente Loira’ que recua a 1995 para mostrar a adolescência da protagonista em Seattle, e de ‘Enola Holmes 3’, onde Millie Bobby Brown veste um vestido de noiva para perseguir vilões enquanto Sherlock desaparece. Observadores em Lisboa e São Paulo notam que a chamada “precuelite” – a multiplicação de histórias que recuam no tempo em vez de avançar – se tornou o motor de plataformas como Prime Video e Netflix. O artigo do diário espanhol ‘El Día’ sublinha que a lógica é simples: personagens conhecidos geram uma “cumplicidade afetuosa” que nenhuma história original consegue igualar, e o passado oferece “terreno virgem” sem forçar narrativas já encerradas.

A forma como estas franquias se adaptam aos mercados locais revela camadas adicionais de nostalgia. A participação de Muschietti na versão hispano-americana de ‘Minions & Monstros’ insere-se numa estratégia que, segundo fontes da indústria no Brasil, se repete com frequência: convidar figuras reconhecidas para as dobragens, ancorando o produto numa familiaridade cultural que vai além da tradução. O sotaque tanguero de Max, que para um espectador argentino evoca imediatamente Gardel e a cultura portenha, transforma um personagem secundário num eco de uma memória coletiva. Em ‘Enola Holmes 3’, por sua vez, o tom mais “maduro e assustador”, como o descreveu Henry Cavill, procura acompanhar o envelhecimento da audiência que cresceu com a saga.

No final, a imagem que perdura é a de um Minion mudo, a gesticular num set de filmagem dos anos 20, enquanto um realizador argentino lhe empresta, a milhares de quilómetros e quase um século depois, a voz de um cantor de tango que nunca chegou a ver um desenho animado. É uma sobreposição de tempos e geografias que talvez explique melhor do que qualquer análise porque é que Hollywood continua a escavar o passado: não apenas por segurança comercial, mas porque cada regresso permite que novas culturas imprimam a sua própria memória afetiva sobre as ruínas de uma era que nunca existiu exatamente assim.

Divergência das fontes

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37%Média

Quanto as fontes relatam os mesmos fatos de maneira diferente.

Como se dividem

Favorável78%
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Como a mesma história é contada em outros lugares.

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Imprensa latino-americanaImprensa europeia continental
Imprensa latino-americana/ Mercado
TriunfoPragmatismo

O novo filme dos Minions traz o diretor argentino Andy Muschietti como dublador, com um sotaque que lembra Carlos Gardel. Isso é celebrado como um momento de orgulho para o cinema argentino, mostrando como o talento local pode deixar uma marca única em uma franquia global de Hollywood. O prequel se insere em uma onda de extensões de franquias, mas é a conexão argentina que o torna noticiável.

Imprensa europeia continental/ Mediterrânea
AlarmeCeticismo

Em uma entrevista, o diretor dos Minions, Pierre Coffin, expressou forte ceticismo em relação à inteligência artificial, alertando que, embora seja promovida como o futuro, está destruindo tudo o que toca. Ele enfatizou o valor insubstituível da criatividade humana na animação, apresentando o novo filme como uma homenagem à Hollywood clássica. As declarações surgem em meio à crescente adoção de ferramentas de IA pela indústria.

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