
A 'remada viking' que conquistou o Mundial e levou a Noruega às oitavas
A coreografia que nasceu nas bancadas do Rosenborg espalhou-se pelas ruas dos Estados Unidos e tornou-se a celebração emblemática de uma seleção norueguesa que regressou ao torneio após 28 anos de ausência.
O apito final no MetLife Stadium, em Nova Jérsia, confirmou a vitória da Noruega sobre o Senegal por 3-2 e a inédita classificação para os dezasseis avos de final. Mas o momento que correu o mundo não foi o golo decisivo, e sim o que aconteceu nas bancadas logo a seguir: milhares de adeptos noruegueses sentaram-se em filas cerradas, esticaram os braços e começaram a remar em uníssono, entoando “ro, ro, ro”. Em campo, o capitão Martin Ødegaard empunhou um tambor e os jogadores reproduziram o gesto, selando uma coreografia que já tinha tomado conta da Times Square, de estações de metro e de escadas rolantes em Nova Iorque.
A celebração, batizada de “remada viking”, tem raízes antigas, mas foi um professor do ensino fundamental, Ole Frøystad — agora conhecido como Senhor Row Row —, quem a transformou num fenómeno global. Numa entrevista à imprensa norueguesa, Frøystad recordou que o movimento surgiu há anos nos jogos do Rosenborg, quando a torcida dividia o nome do clube em três sílabas e a primeira, “Ro”, fazia tremer o Estádio Lerkendal. Com o regresso da seleção a um Campeonato do Mundo, o professor procurou um cântico que unisse o país e a remada viking foi a que mais conquistou os noruegueses. A coreografia estreou-se internacionalmente num particular com a Suíça, em março, e desde então multiplicou-se em vídeos virais. Na perspetiva de analistas do desporto na Europa, o gesto simples e repetível tornou-se uma forma de expressão cultural que atravessa fronteiras com facilidade.
A febre da remada não é um caso isolado. A “Tartan Army” escocesa invadiu Boston e Miami com kilts, gaitas de foles e um repertório que inclui a melodia de “La Mano de Dios”, do argentino Rodrigo, adaptada para exaltar a sua seleção. Apesar de a Escócia ter terminado o Grupo C em terceiro lugar, com uma vitória sobre o Haiti e derrotas frente a Marrocos e ao Brasil, os adeptos mantiveram a festa e até colocaram cones de trânsito em estátuas, numa tradição moderna que viaja com eles. Já os congoleses encontraram noutro tipo de performance a sua marca: o adepto Michel Nkuka Mboladinga assiste aos jogos imóvel, pintado como uma estátua viva de Patrice Lumumba, herói da independência do país. Observadores na América do Norte notam que estas manifestações transformaram o Mundial numa montra de identidades nacionais, num contraste com a proibição das vuvuzelas sul-africanas, que não foram autorizadas nos estádios deste torneio.
A dimensão do fenómeno norueguês também gerou reações entre os vizinhos. O defesa sueco Gustaf Lagerbielke admitiu em conferência de imprensa que “suspiramos sempre que vemos aquilo”, enquanto o médio Elliot Stroud considerou que a coreografia já é “um pouco exagerada”. Ainda assim, na perspetiva de Estocolmo, o incómodo parece menor diante do momento que a seleção norueguesa atravessa. O próprio Parlamento norueguês, em Oslo, reproduziu a remada como forma de apoio, e o professor Frøystad ganhou mais de 50 mil seguidores.
Com a vaga nos oitavos garantida, a Noruega encerra a fase de grupos frente à França, enquanto a Escócia aguarda por uma combinação de resultados que lhe permita avançar como um dos melhores terceiros. A remada viking, entretanto, já não depende de calendários: tornou-se a assinatura de um país que voltou a remar junto no maior palco do futebol.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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