
A noite em que o irmão dormia na sala: o peso global dos exames de acesso à universidade
Do Dubai a Faridabad, da Cidade do México a São Paulo, a divulgação de resultados de provas como NEET, UNAM e Fies expõe sonhos, renúncias e uma pressão que não conhece fronteiras.
Na casa da família Naik, no Dubai, o ritual repetia-se todas as noites durante meses: o irmão mais velho de Sankalp Sandeep Naik abandonava o quarto que partilhavam e ia dormir na sala, para que o rapaz de 18 anos pudesse estudar em silêncio. O exame que definiria o seu futuro, o National Eligibility cum Entrance Test (NEET) indiano, já tinha sido adiado uma vez por causa de uma fuga de provas, e Sankalp confessou mais tarde ao Khaleej Times que pensara em desistir. “Perdi completamente o interesse”, recordou. Foi a mãe quem se recusou a deixá-lo parar. A 17 de julho de 2026, quando os resultados da repetição do NEET foram finalmente publicados, Sankalp descobriu que se tornara o candidato mais bem classificado entre todos os que fizeram a prova fora da Índia, com uma pontuação de 650 em 720.
A história de Sankalp é um fragmento de um mapa muito mais vasto. Nesse mesmo dia, a agência nacional de testes da Índia revelava que 11,21 lakh de candidatos — mais de um milhão de jovens — tinham sido considerados aptos para cursos de medicina, mas o caminho até ali fora tudo menos linear. O exame original, realizado a 3 de maio, foi anulado após denúncias de fuga de informações, obrigando a uma repetição a 21 de junho. A nova prova, descreveram estudantes de Karnataka ao The Hindu, era mais difícil, e muitos viram as suas notas cair. Vaishnavi Das, a melhor classificada do estado, perdeu dez pontos em relação à primeira tentativa; Suchita M., que antes alcançara a pontuação perfeita de 720, ficou-se pelos 695. Ainda assim, o topo da tabela nacional foi partilhado por Aryan Gupta, do Punjab, e Panshul Bansal, de Haryana, ambos com 715 pontos. Em Tamil Nadu, doze estudantes ultrapassaram a barreira dos 690, e o estado manteve uma taxa de aprovação estável, na casa dos 56%, enquanto Uttar Pradesh liderou em números absolutos, com mais de 170 mil qualificados.
A euforia dos que veem o nome nas listas esconde, porém, uma face mais sombria. Em Faridabad, na periferia de Deli, uma adolescente de 18 anos saltou do 16.º andar do prédio onde vivia na quinta-feira, um dia depois de ter calculado a sua provável pontuação através da chave de respostas online. A família, originária de Vijayawada, contou à polícia que a jovem esperava um resultado muito mais alto e que a estimativa de cerca de 600 pontos a deixara profundamente abalada. O pai, executivo de uma empresa privada, descreveu-a como uma aluna brilhante que sempre se destacara. O caso ecoa uma angústia que, na perspetiva de observadores em Lisboa e São Paulo, não é exclusiva do subcontinente indiano, mas revela a brutalidade de sistemas de acesso ao ensino superior que concentram todas as esperanças numa única tarde de prova.
Do outro lado do mundo, a Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM) também divulgou a 17 de julho os resultados do seu concurso de licenciatura, e o cenário repetia padrões conhecidos. Pela primeira vez, o exame fora aplicado inteiramente online, com um sistema de supervisão baseado em inteligência artificial que gravou cada movimento dos candidatos. A tecnologia acelerou o processo, mas gerou controvérsia: dezenas de jovens denunciaram nas redes sociais que as suas provas foram anuladas por movimentos considerados irregulares, ruído ambiente ou falhas de conexão. Dos mais de 158 mil que fizeram o teste, apenas 21.962 conseguiram uma vaga. Para os restantes, abriu-se um prazo de dez dias para solicitar a revisão do exame, um procedimento presencial que exige a apresentação de documentos específicos e que, sublinha a universidade, não garante qualquer alteração do resultado. No Brasil, o mesmo dia marcava o encerramento das inscrições para o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) do segundo semestre, com mais de 44 mil vagas disponíveis para estudantes que dependem do crédito público para frequentar faculdades privadas. O programa exige uma média mínima de 450 pontos no Enem e reserva metade das vagas para candidatos de baixa renda inscritos no CadÚnico.
Naquela noite de julho, enquanto milhares de famílias indianas digeriam listas de classificações e recálculos de percentis, Sankalp Naik permitiu-se, pela primeira vez em meses, imaginar o alívio. “Aquele dia em que terminei o exame”, disse, “soube que toda a pressão ia acabar. Que finalmente podia voltar a divertir-me.” O irmão, entretanto, já não precisava de dormir na sala.
| Imprensa indiana e sul-asiática | −0.20 | neutral |
|---|---|---|
| Imprensa latino-americana | 0.00 | neutral |
| Imprensa do Golfo árabe | +1.00 | aligned |
India denounces the human cost of exams while celebrating its champions.
Opposing stories – success and death – are juxtaposed to create an ambivalence that legitimizes both national pride and criticism of the system.
The structural causes of pressure, such as the role of private coaching or lack of psychological support, are not explored.
Brazil and Mexico reduce university access to an administrative procedure.
Deadlines and requirements are emphasized, turning a potentially stressful event into a manageable routine.
The suicide of the Indian student and any reference to global anxiety are omitted, focusing only on practical aspects.
The UAE shows that with family support, a postponement can be turned into a triumph.
A single success story is told to offer a positive model, implicitly contrasting with the Indian tragic narrative.
The suicide of the Indian student and criticisms of the exam system are not mentioned, focusing only on the positive outcome.
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