
Utøya, 15 anos: a memória de uma menina e o avanço da extrema-direita
Enquanto a Noruega recorda as 77 vítimas do massacre, o ideário do terrorista Anders Breivik encontra terreno fértil em discursos políticos e na radicalização online, alertam analistas.
Jørn Øverby ainda vê a menina a boiar de bruços nas águas frias do Tyrifjorden. Na camisola, o desenho do Mickey Mouse denunciava a pouca idade. “Tinha um buraco do tamanho de um punho nas costas”, recorda. Na tarde de 22 de julho de 2011, Øverby foi um dos primeiros a chegar à ilha de Utøya com o seu barco, enquanto os tiros ainda ecoavam. Resgatou cerca de trinta jovens, mas a imagem daquela menina — e dos corpos abandonados na escuridão, com telemóveis a piscar na floresta — persegue-o todas as noites, quinze anos depois.
O massacre perpetrado por Anders Behring Breivik matou 77 pessoas, a maioria adolescentes que participavam no acampamento de verão da juventude trabalhista norueguesa. Antes de disparar, Breivik fez explodir uma bomba no centro de Oslo. No seu manifesto de 1500 páginas, defendia a “remigração” forçada de muçulmanos e um “raskrig” para salvar a Europa. Hoje, observadores italianos notam que a ideia de deportação em massa, então considerada um delírio extremista, foi normalizada em programas de governos ocidentais. A administração Trump, por exemplo, ofereceu incentivos financeiros para a “remigração voluntária”, ecoando a proposta de Breivik de dar um quilo de ouro a cada família que partisse.
Na Suécia, o partido de extrema-direita Democratas Suecos, que em 2011 era um pária parlamentar, dita hoje políticas migratórias restritivas a partir de um gabinete de coordenação no governo. Em Berlim, a Alternativa para a Alemanha (AfD) aproxima-se dos 30% nas sondagens. A Europol e os serviços de segurança noruegueses (PST) alertam que o extremismo de direita representa um perigo maior agora do que há quinze anos. Nas redes sociais, jovens sem memória direta do atentado encontram em fóruns online uma mistura de violência grotesca, humor e referências de videojogos que, segundo o PST, funciona como “autoestrada para a radicalização”. No Brasil, investigadores do Observatório da Extrema Direita apontam a ressonância desse discurso em comunidades digitais lusófonas, onde o culto a Breivik é detetado em fóruns fechados.
A Noruega tenta conter a ameaça sem abdicar dos seus princípios. Breivik cumpre pena num complexo prisional com cozinha equipada, sala de jogos e três periquitos, uma tentativa de mitigar os efeitos do isolamento total. A opinião pública debate-se entre a repulsa e a defesa do Estado de direito. Em Oslo, foi inaugurado um novo memorial — uma estrutura de aço azul que sustenta um mosaico de uma ave pernalta, composto por mais de 300 mil pedras talhadas por sobreviventes. A mãe da vítima mais nova, de 14 anos, abandonou a pré-inauguração ao ver exposta a farda policial usada pelo assassino. “A reação foi intensa”, disse. A memória de Utøya permanece um território de dor, mas também um alerta que, para muitos, se tornou incómodo.
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