
Uzbequistão estreia no Mundial com Cannavaro e a ambição de um regime sob escrutínio
A seleção da Ásia Central, símbolo do 'Novo Uzbequistão' de Mirziyoyev, enfrenta a Colômbia com jovens talentos e o peso de um projeto político autoritário.
A histórica estreia do Uzbequistão em Copas do Mundo, nesta quinta-feira no Estádio Azteca, transcende o simples feito desportivo. Sob o comando do italiano Fabio Cannavaro, campeão mundial como jogador em 2006, a seleção centro-asiática enfrenta a Colômbia no Grupo K, mas carrega consigo o simbolismo de um país em transformação — e contradição. O regime do presidente Shavkat Mirziyoyev, que sucedeu ao autoritário Islam Karimov, promove o “Novo Uzbequistão” com reformas de abertura económica e um ambicioso programa de investimento no futebol: milhares de milhões de dólares em novos estádios, academias e na contratação de um técnico de prestígio internacional. Contudo, analistas europeus e organizações de direitos humanos alertam que a modernização convive com a repressão política, e o Mundial serve também como vitrine para um regime que controla a narrativa interna.
A imprensa italiana destaca o regresso de Cannavaro ao palco mundial, agora como estratega de uma equipa apelidada de “Lobos Brancos”. O treinador, que assumiu o cargo em outubro após a qualificação histórica, reconhece a complexidade do duelo inaugural: “Díaz e James são jogadores icónicos, capazes de mudar o jogo a qualquer momento”, afirmou, referindo-se às estrelas colombianas. A equipa uzbeque, contudo, não se resume a uma defesa aguerrida. O capitão Eldor Shomurodov, avançado com experiência na Serie A italiana, e o jovem defesa Abdukodir Khusanov, que começa a afirmar-se no futebol europeu, são os pilares de uma geração que, segundo observadores asiáticos, combina disciplina tática com crescente maturidade competitiva.
Na América Latina, a atenção divide-se entre o desconhecido adversário e a expectativa sobre a Colômbia, que regressa ao torneio após a ausência em 2022. O técnico Néstor Lorenzo liderou uma recuperação significativa, e a equipa conta com a experiência de James Rodríguez e a explosividade de Luis Díaz, além de um coletivo que “luta até ao fim”, como notou Cannavaro. Já a análise colombiana descreve o Uzbequistão como um rival envolto em calma, ciente de que a simples presença no Mundial é um prémio, o que retira pressão imediata e pode tornar a equipa perigosa pela imprevisibilidade.
Do Brasil, a rádio CBN sublinha que o Uzbequistão é a única antiga república soviética presente no torneio, com a Rússia suspensa e as demais eliminadas. A campanha de qualificação foi sólida: segundo lugar no grupo atrás do Irão em ambas as fases, com dez vitórias, cinco empates e apenas uma derrota. Ocupando a 50.ª posição no ranking da FIFA, a equipa aposta numa geração que começa a ganhar espaço nas ligas europeias, um reflexo do investimento estrutural. Contudo, o projeto “Novo Uzbequistão” permanece sob escrutínio: o futebol é, simultaneamente, ferramenta de projeção internacional e cortina de fumo para as limitações democráticas, um dilema que a exposição global pode acentuar.
O futuro imediato passa pelo confronto com a Colômbia, mas a presença uzbeque no Mundial já é um marco geopolítico e desportivo. A ambição de se tornar uma potência regional no futebol asiático esbarra na necessidade de resultados concretos e na capacidade de gerir a atenção mediática que inevitavelmente trará perguntas incómodas sobre direitos humanos. Para Cannavaro, o desafio é duplo: conduzir uma equipa sem pressão histórica, mas com o peso de um regime que vê no desporto um instrumento de legitimação. A estreia no Azteca será, assim, o primeiro capítulo de uma história que vai muito além das quatro linhas.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A estreia do Uzbequistão na Copa do Mundo serve de vitrine para o regime, que investiu bilhões em estádios e academias para projetar uma imagem de modernidade. Por trás do conto de fadas futebolístico, porém, paira a sombra da repressão política e da falta de liberdades. A contratação de Cannavaro é apenas mais uma peça em uma estratégia de soft power que busca legitimidade internacional.
Fabio Cannavaro, o inesquecível capitão da Itália campeã mundial de 2006, retorna ao palco mundial, desta vez como técnico do Uzbequistão. É uma estreia pessoal no banco que acrescenta um toque italiano a um torneio já transgressivo. O foco está em sua trajetória e na memória nostálgica de Berlim, mais do que na equipe que comanda.
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