
Trump elogia neutralidade de Pequim e Moscovo na guerra com o Irão
Na cimeira do G7 em França, o presidente dos EUA agradeceu a Xi Jinping e Vladimir Putin por não terem dificultado a ação militar americana, num gesto que reconfigura alianças e expõe fissuras com parceiros tradicionais.
Donald Trump surpreendeu a cimeira do G7 em Evian-les-Bains, França, ao agradecer publicamente à China e à Rússia pela sua «neutralidade» durante a guerra com o Irão, que culminou com a adoção de um memorando de cessar-fogo. Perante jornalistas, o presidente norte-americano afirmou que Xi Jinping e Vladimir Putin «se mantiveram totalmente neutros» e que, sem essa postura, a operação militar teria sido «muito mais difícil». Trump revelou ainda ter solicitado diretamente a Pequim e a Moscovo que não fornecessem armas a Teerão, um pedido que, segundo Moscovo, já estava em linha com a sua política de não exportação de material bélico para o regime iraniano durante o conflito.
O gesto de gratidão para com as duas potências rivais contrastou fortemente com as críticas dirigidas a aliados históricos. Durante a mesma conferência de imprensa, Trump censurou o Japão e várias nações europeias por não terem prestado assistência suficiente nos esforços de contenção do programa nuclear iraniano. Esta dualidade acentua a erosão da confiança transatlântica e reforça a narrativa de uma Casa Branca que privilegia relações bilaterais transacionais com adversários estratégicos, em detrimento dos mecanismos multilaterais tradicionais.
Na perspetiva de Brasília, a atitude de Trump ecoa a defesa de uma ordem multipolar que o Brasil tem promovido em fóruns como os BRICS. A neutralidade de Pequim e Moscovo, longe de ser passiva, traduz um cálculo geopolítico: ao não se envolverem militarmente, preservaram a sua influência económica sobre Teerão e evitaram uma escalada que poderia inflamar os mercados energéticos globais. Observadores em Lisboa notam que a posição de Washington coloca os aliados europeus da NATO numa situação delicada, uma vez que vários países contribuíram com apoio logístico e partilha de informações, mas foram publicamente secundarizados. Nas capitais africanas de língua portuguesa, a principal inquietação reside na estabilidade do Estreito de Hormuz e no preço do petróleo, fatores que afetam diretamente economias como a angolana e a moçambicana.
O desfecho imediato do conflito — um acordo que prevê a desmilitarização temporária da via marítima e a retoma das inspeções internacionais ao programa nuclear iraniano — foi possível, em parte, graças à abstenção de Pequim e Moscovo de vetarem resoluções no Conselho de Segurança. Contudo, analistas advertem que esta neutralidade é frágil e condicionada: a China depende do petróleo iraniano e a Rússia vê no Irão um parceiro estratégico para contrabalançar a influência ocidental no Médio Oriente. A continuidade do acordo dependerá, assim, da capacidade de Washington em oferecer incentivos económicos que compensem o alinhamento temporário das duas potências.
A cimeira de Evian-les-Bains deixa um legado ambíguo. Se, por um lado, o conflito com o Irão foi contido sem uma escalada global, por outro, a gratidão seletiva de Trump expôs a fragilidade das alianças ocidentais e a ascensão de um eixo de conveniência entre Washington, Pequim e Moscovo. Para os países lusófonos, o episódio sublinha a urgência de diversificar parcerias estratégicas e de reforçar a voz própria em organismos multilaterais, num mundo onde a neutralidade pode ser tão decisiva quanto a beligerância.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A mídia russa relata que o presidente Trump agradeceu publicamente a Putin e Xi Jinping por sua posição neutra na guerra do Irã, observando que, caso contrário, eles poderiam ter complicado significativamente a tarefa dos EUA. A cobertura enfatiza o reconhecimento do papel construtivo da Rússia e o valor de sua posição equilibrada.
A imprensa anglófona relata que Trump agradeceu a Xi e Putin por sua neutralidade, enquadrando isso como um desprezo aos aliados ocidentais não mencionados. A cobertura sugere que o presidente dos EUA está priorizando as relações com adversários em detrimento dos parceiros tradicionais, levantando questões sobre a confiabilidade das alianças.
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