
Israel rompe relações com chefe da diplomacia europeia após comparação com apartheid
Ministro Gideon Saar corta todo contacto com Kaja Kallas, acusando-a de 'libelo de sangue', enquanto Bruxelas reafirma solução de dois Estados e condena colonatos.
O ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, Gideon Saar, anunciou na quinta-feira a suspensão de “todo o contacto” com a alta representante da União Europeia para a Política Externa, Kaja Kallas, naquela que é a mais grave crispação diplomática recente entre Jerusalém e Bruxelas. A decisão surge na sequência de notícias — não desmentidas oficialmente — de que Kallas comparou o tratamento israelita aos palestinianos ao regime de apartheid sul-africano, durante um encontro à porta fechada com representantes do governo mexicano, em maio. Saar acusou a responsável europeia de agir “de forma obsessiva e com flagrante injustiça” e exigiu uma retratação pública, classificando as declarações como um “libelo de sangue”, expressão historicamente associada a acusações antissemitas.
Kallas respondeu com uma mensagem na rede social X dirigida a “Dear Gideon”, na qual evitou confirmar ou negar diretamente as palavras que lhe são atribuídas. Sublinhou o valor do “diálogo e da colaboração” e reiterou a posição oficial da União Europeia: a solução de dois Estados é o único caminho viável para a paz e os colonatos israelitas na Cisjordânia são ilegais e constituem um obstáculo crescente. O embaixador da UE em Telavive, Michael Mann, clarificou entretanto que o bloco não considera Israel um Estado de apartheid, mas escusou-se a comentar citações não oficiais. A troca de mensagens evidencia um mal-estar que transcende o episódio mexicano: as relações bilaterais estão sob forte tensão desde o início da guerra em Gaza, em outubro de 2023, agravadas pela violência de colonos judeus na Cisjordânia ocupada e pelas críticas europeias à conduta militar israelita.
Na perspetiva de Brasília, o incidente ecoa num momento em que o governo Lula mantém um tom crítico em relação às operações israelitas em Gaza, tendo já evocado a memória da luta contra o apartheid para descrever a situação palestiniana. Observadores em Lisboa notam que Portugal, como Estado-membro da UE, alinha com a defesa da solução de dois Estados, mas procura equilibrar laços históricos com Israel e o mundo árabe. Já em Luanda e Maputo, onde a solidariedade com a causa palestiniana se entrelaça com a herança das guerras de libertação contra o colonialismo e o apartheid, a comparação atribuída a Kallas tende a ser recebida com menor estranheza, ainda que a diplomacia oficial evite pronunciar-se sobre um diferendo interno europeu.
O corte unilateral de canais com a chefe da diplomacia comunitária representa uma escalada simbólica com potenciais consequências práticas. A União Europeia é um dos principais parceiros comerciais e de cooperação de Israel, e a ausência de diálogo direto pode dificultar a coordenação em dossiês como a ajuda humanitária a Gaza ou a estabilização da fronteira com o Líbano. Ao mesmo tempo, a firmeza de Saar visa projetar internamente uma imagem de intolerância face ao que descreve como difamação, num contexto de crescente isolamento diplomático israelita em fóruns multilaterais. Resta saber se a pressão para uma retratação surtirá efeito ou se, pelo contrário, aprofundará o fosso entre a UE e um governo israelita cada vez mais renitente a críticas externas.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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O ministro dos Negócios Estrangeiros israelita cortou todo o contacto com a chefe da diplomacia da UE, acusando-a de agir de forma obsessiva e manifestamente injusta depois de alegadamente ter comparado Israel ao regime racista do apartheid. Declarou que não falará com ela até que retire essa acusação de sangue antissemita, notando que ela não desmentiu nem esclareceu as declarações. Elogiou ainda os responsáveis europeus que condenaram a comparação.
O ministro dos Negócios Estrangeiros israelita anunciou o corte de todo o contacto com a alta representante da UE, invocando uma informação de difícil verificação de que ela comparou Israel à África do Sul do apartheid durante uma reunião à porta fechada. A decisão baseia-se numa notícia sobre um encontro confidencial, e o ministro classificou a alegada observação como uma acusação de sangue antissemita. A responsável europeia não confirmou nem desmentiu publicamente.
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