
Tom Hanks aos 70: a gentileza como legado de um ícone improvável
Aos 70 anos, o ator que deu vida a Forrest Gump e Woody coleciona histórias de bondade, uma carreira de sucessos e um lugar raro no coração do público global.
Em 2015, durante um passeio pelo Central Park, em Nova Iorque, Tom Hanks encontrou um cartão de estudante perdido. Em vez de o ignorar, fotografou-o, escondeu o apelido da jovem e publicou no Twitter: “Lauren! Encontrei o teu cartão no parque. Se ainda precisares, o meu escritório vai contactar-te. Hanx”. O gesto, pequeno e público, encapsula a reputação que o ator construiu ao longo de mais de quatro décadas: a de ser, como tantas vezes se diz, “o homem mais simpático de Hollywood”. A 9 de julho, Hanks completa 70 anos, e a data reaviva a pergunta sobre como um ator sem a beleza clássica de um galã ou o físico de um herói de ação se tornou uma das figuras mais queridas do cinema mundial.
Nascido em Concord, Califórnia, em 1956, Hanks teve uma infância nómada, marcada pelo divórcio dos pais e por constantes mudanças de escola — foram dez até ao secundário. A timidez empurrou-o para o teatro universitário, e a estreia profissional chegou em papéis cómicos na televisão. O reconhecimento massivo veio com Big (1988), onde interpretou um menino de 12 anos preso no corpo de um adulto, papel que lhe valeu a primeira nomeação ao Oscar. Mas foi na década de 1990 que a sua carreira se transfigurou: venceu o Oscar de Melhor Ator dois anos consecutivos, por Philadelphia (1993), onde encarnou um advogado com VIH, e por Forrest Gump (1994), a saga de um homem simples que atravessa a história americana. Forrest Gump tornou-se um fenómeno cultural global. Na Índia, a história foi adaptada para Laal Singh Chaddha (2022), com Aamir Khan no papel principal, um sinal da universalidade da personagem. Críticos nos Estados Unidos, porém, debatem qual será a sua obra-prima: segundo o agregador Rotten Tomatoes, o filme mais bem avaliado é Toy Story 2 (1999), com 100% de aprovação, onde Hanks empresta a voz ao cowboy Woody, um papel que o acompanha há três décadas e cinco filmes.
Fora do ecrã, Hanks cultiva uma imagem de estabilidade rara. Casado há 38 anos com a atriz e produtora Rita Wilson, o casal partilha rituais simples: conversam na casa de banho enquanto se preparam para o dia e têm uma regra de ouro — nunca se deitam zangados. Wilson, que enfrentou um cancro de mama em 2015, descreve a comunicação constante como o alicerce da relação. O ator gere a diabetes tipo 2, diagnosticada há anos, com uma dieta sem açúcar e exercício moderado, longe dos extremos. A sua rotina contrasta com a de outro veterano de Hollywood: Sylvester Stallone, que aos 80 anos mantém treinos diários intensos e uma dieta rica em proteínas, confessando que “cada ano se torna mais difícil”. Enquanto Stallone persiste no ginásio como quem trava uma batalha, Hanks parece aceitar o envelhecimento com uma leveza irónica: “Tenho de viver com a minha cara”, disse ao jornal Bild, enumerando o nariz “de pateta”, as orelhas descaídas e a barriga que exige vigilância. A sua coleção de mais de 250 máquinas de escrever e a marca de café que criou para apoiar veteranos de guerra — um trocadilho com “thanks” — completam o retrato de um homem que transformou a fama numa plataforma de pequenas gentilezas.
O efeito dos seus filmes extravasou a tela. Gary Sinise, que interpretou o tenente Dan em Forrest Gump, relata que o contacto com veteranos mutilados durante a preparação do papel o levou a criar uma fundação de apoio a ex-combatentes. “Talvez haja um pouco de destino no facto de eu ter interpretado aquele personagem”, disse Sinise, cuja organização já construiu casas adaptadas e oferece assistência psicológica. Na Europa, Hanks é cidadão honorário da Grécia, onde passa temporadas numa villa branca na ilha de Antiparos, e em Itália ainda se recorda o dia em que, durante as filmagens de Anjos e Demónios, escoltou uma noiva até ao interior do Panteão, abrindo caminho por entre o aparato da produção. A imagem do ator a segurar a mão da noiva, sorrindo, talvez resuma melhor do que qualquer prémio o lugar que Tom Hanks ocupa: o de um homem comum que, por acaso, se tornou uma lenda.
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America recognizes in Tom Hanks its most authentic face, a timeless icon embodying national values.
A poll transforms Hanks into a national emblem, making his image universal and rooted in American identity.
Hanks' wisdom on patience and time is a reminder that greatness is built from the everyday.
A personal anecdote from the actor is elevated to a universal lesson, turning his figure into a model of conduct.
Tom Hanks is not just an actor but a figure whose roles have become part of the cultural canon, confirmed by an authoritative selection.
A list of best roles compiled by a historian lends objectivity to the assessment and places Hanks in the pantheon of world cinema.
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