
Sob a chuva de Écône, os lefebvrianos consagram bispos e desafiam Roma
A Fraternidade São Pio X ordenou quatro bispos sem mandato papal, reacendendo um cisma que ecoa desde 1988, apesar do apelo de Leão XIV.
A chuva fina que caía sobre o vale do Ródano não dispersou a procissão de sacerdotes que, pouco depois das oito da manhã, avançava em direção ao grande toldo armado no campo de Écône. Dentro, milhares de fiéis acompanhavam o rito em latim, enquanto a transmissão em direto no YouTube exibia, a meio da cerimónia, um código QR para donativos à distância. O gesto, aparentemente banal, condensava a natureza paradoxal do momento: uma comunidade que se reclama guardiã da tradição pré-conciliar recorria às ferramentas da cultura digital para consumar um ato de desobediência ao Papa.
Sob a presidência de monsenhor Alfonso de Galarreta, coadjuvado por Bernard Fellay — ambos sobreviventes das ordenações cismáticas de 1988 —, foram consagrados Pascal Schreiber (Suíça), Michael Goldade (Estados Unidos), Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier (França). A cerimónia, com mais de quatro horas, repetiu os mesmos paramentos utilizados há 38 anos, quando Marcel Lefebvre desafiou João Paulo II. Na véspera, Leão XIV publicara uma carta em que pedia: “Por favor, voltem atrás!”, advertindo que o ato privaria os fiéis da receção lícita e, em certos casos, válida dos sacramentos. A resposta chegou na homilia do superior-geral, Davide Pagliarani: “Estamos prontos a pagar qualquer preço para salvar a Igreja”.
Fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X opõe-se às reformas do Concílio Vaticano II — a liberdade religiosa, o ecumenismo, a liturgia em vernáculo — e celebra exclusivamente a missa tridentina. A rutura de 1988 resultou na excomunhão automática dos envolvidos, sanção que Bento XVI retirou em 2009, num gesto de aproximação que incluiu a liberalização da missa em latim. Francisco, por sua vez, concedeu aos sacerdotes da fraternidade a faculdade de absolver confissões e celebrar matrimónios, embora mais tarde tenha restringido o rito antigo. Apesar desses acenos, o grupo manteve-se numa espécie de limbo canónico, sem estatuto jurídico pleno, mas com uma presença em expansão: cerca de 750 sacerdotes, 264 seminaristas e perto de 600 mil fiéis em mais de 70 países.
A dimensão global do evento refletiu-se na audiência que acompanhou a transmissão em várias línguas e na diversidade dos presentes no terreno. Na imprensa francesa, sublinhou-se que o país continua a albergar a comunidade mais numerosa da fraternidade, com cerca de 100 mil seguidores. Observadores em Itália notaram a presença de delegações da extrema-direita, como o movimento Futuro Nazionale e Forza Nuova, enquanto analistas nos Estados Unidos recordaram que um dos novos bispos, Michael Goldade, é norte-americano, sinal da implantação do grupo no coração do catolicismo anglófono. Em Roma, o cardeal Gerhard Ludwig Müller, antigo prefeito da Doutrina da Fé, comentou que os lefebvrianos “são mais protestantes do que os protestantes”, ao comportarem-se “como Lutero há cinco séculos: aceitarei o Papa quando o Papa aceitar a minha ideia de tradição”.
No final da manhã, enquanto os sinos de Écône ainda repicavam, os ecrãs dos telemóveis mostravam o QR code sobreposto à imagem dos novos bispos de mitra e báculo. A justaposição entre o rito antiquíssimo e a interface digital não era um acidente: era a expressão de um cisma que, pela primeira vez, se consumava em direto para o mundo, com vinho comemorativo à venda e bonés com o selo “Econe2026”.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A Fraternidade São Pio X consumou o cisma ao ordenar quatro bispos sem mandato pontifício, ignorando o apelo do Papa Leão XIV. O ato, transmitido ao vivo, recorda a rutura de 1988 e implica a excomunhão automática. A cerimónia em Écône, à chuva, marca um novo rasgão na túnica de Cristo.
Um grupo tradicionalista dissidente desafiou o Papa Leão XIV ao consagrar quatro bispos sem o seu consentimento, arriscando um cisma. A cerimónia na Suíça representa a primeira grande crise para o pontificado de Leão, que fez da unidade uma prioridade. O ato implica a excomunhão automática, mas a Fraternidade São Pio X avançou apesar dos avisos.
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