
Scaloni tenta despolitizar duelo com Inglaterra e foca na recuperação do jogo argentino
Técnico pede que a semifinal do Mundial de 2026 não seja associada à Guerra das Malvinas, enquanto admite que a seleção precisa reencontrar a posse de bola para neutralizar a velocidade inglesa.
A conferência de Lionel Scaloni na véspera da semifinal contra a Inglaterra, em Atlanta, foi marcada por um esforço sistemático de separar o futebol da memória traumática da Guerra das Malvinas. “É só uma partida de futebol. Não posso misturar as coisas, sobretudo por respeito ao que aconteceu há tantos anos”, afirmou o treinador, ecoando um discurso que, na perspetiva de analistas em Buenos Aires, procura blindar os jogadores da carga emocional que historicamente envolve o confronto. Scaloni reconheceu a dor coletiva — “recordamos essa gente, sem dúvida” —, mas foi taxativo: “Misturar seria uma loucura”. A postura contrasta com declarações de Diego Maradona Jr., que, da Itália, sustentou que “nada é normal contra a Inglaterra”, invocando o legado do pai e os 649 argentinos mortos no conflito de 1982, numa linha que ainda encontra eco em setores da torcida.
Para além do contexto histórico, o treinador campeão do mundo centrou a preparação no que considera a chave tática do duelo: recuperar a identidade de jogo com a bola. “Precisamos voltar a jogar futebol, a ter a posse, que é onde sempre fomos fortes”, diagnosticou, numa leitura partilhada por comentadores desportivos de Lisboa e do Rio de Janeiro, que veem na dificuldade argentina contra a Suíça um sinal de desgaste do modelo que sustentou o ciclo vitorioso. Scaloni admitiu que a equipa sofreu “largos trechos” longe da sua versão habitual e não descartou alterações na escalação, sublinhando que “o presente” dos jogadores pesará mais do que o histórico. A missão será conter a explosão inglesa pelas pontas e as individualidades de Harry Kane e Jude Bellingham, descritos pelo técnico como “dois dos melhores do mundo”.
A imprensa brasileira, em especial a cobertura da CNN Brasil e do UOL, destacou o pedido de Scaloni para que não se “jogue lenha na fogueira”, enquanto o jornal Metrópoles reportou que as autoridades americanas classificaram o jogo como o de maior risco de incidentes da Copa, com proibição de bandeiras alusivas às Malvinas e reforço policial. A medida reflete a tensão que persiste fora das quatro linhas, mesmo com os dois treinadores — Thomas Tuchel também se manifestou em tom semelhante — a tentarem despolitizar o embate. A atmosfera em Atlanta, com problemas na venda de ingressos e previsão de instabilidade meteorológica, adiciona camadas de imprevisibilidade a um duelo que não ocorre em Copas desde 2002.
Dentro de campo, a Argentina chega com a “ilusão intacta”, nas palavras de Scaloni, e a experiência de quem já disputou — e venceu — uma semifinal mundialista sob o seu comando. O treinador valorizou o sofrimento como parte do percurso, lembrando que nenhum dos semifinalistas escapou de dificuldades, mas deixou claro que não deseja depender apenas da resiliência. A eventual classificação colocará os albicelestes na final contra a Espanha, que eliminou a França e, na avaliação do técnico argentino, realizou a “partida mais completa” do torneio. O vencedor do duelo anglo-argentino reencontrará a Roja no domingo, com a oportunidade de inscrever mais um capítulo numa rivalidade que o futebol, sozinho, talvez não consiga despir de história.
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