
Relatório expõe falhas sistêmicas em maternidades britânicas e abala confiança no NHS
Investigação independente revela que mais de 500 mães e bebês sofreram danos evitáveis em hospitais de Nottingham, evidenciando uma cultura tóxica e omissão sistêmica no sistema de saúde britânico.
A divulgação do relatório da investigação independente liderada pela parteira sénior Donna Ockenden, esta quarta-feira, revelou que mais de 500 mães e bebés sofreram danos potencialmente evitáveis ou morreram em duas maternidades do Nottingham University Hospitals NHS Trust, no centro de Inglaterra. O documento, o maior inquérito sobre serviços de maternidade na história do Serviço Nacional de Saúde (NHS) britânico, analisou mais de 2.500 famílias em casos ocorridos entre 2012 e 2025. Entre as vítimas, contabilizam-se pelo menos 156 mortes de bebés — 94 nados-mortos e 62 óbitos neonatais — e seis mortes maternas. O escândalo insere-se numa série de falhas documentadas em outras unidades hospitalares inglesas, como East Kent, Morecambe Bay e Shrewsbury and Telford.
A investigação identificou uma “cultura tóxica e de intimidação” que persistiu durante anos, alimentada por uma “pequena minoria de líderes poderosos”. A escassez crónica de pessoal, a ausência de aprendizagem com incidentes de segurança e a prática de ignorar ou desvalorizar as queixas das mulheres foram apontadas como fatores centrais. O relatório descreve situações em que parturientes foram tratadas com crueldade, tiveram o consentimento ignorado e foram informadas de que “se recompusessem”. O caso de Harriet Hawkins, nado-morta em 2016 apesar de os pais serem médicos no mesmo hospital, exemplifica o padrão: as preocupações da mãe foram repetidamente ignoradas e a causa da morte foi inicialmente encoberta. Os pais descreveram uma “campanha implacável e quase insuportável de dez anos” para obter a verdade.
O ministro da Saúde britânico, James Murray, classificou as conclusões como “arrepiantes” e manifestou-se “horrorizado com a negligência, incompetência, racismo, discriminação, desprezo e assédio” sofridos pelas famílias. Anunciou um plano de ação até ao final do ano e a extensão da “Regra de Martha” — que garante uma segunda opinião clínica independente — a todas as maternidades inglesas. Para observadores em Lisboa e Brasília, onde o NHS é frequentemente citado como referência para os sistemas públicos de saúde, o caso expõe riscos de captura institucional e a necessidade de mecanismos robustos de escuta das pacientes. Em Portugal, o SNS enfrenta carências de profissionais e queixas de desumanização, enquanto no Brasil a mortalidade materna permanece um desafio estrutural, com disparidades raciais e regionais.
O próximo marco factual será a publicação, na próxima semana, de uma revisão nacional rápida de serviços de maternidade em 14 outros hospitais do NHS, encomendada pelo governo. Paralelamente, a implementação da obrigatoriedade de depoimento para funcionários e ex-funcionários, sob pena de até dois anos de prisão, visa quebrar a “cultura de silêncio”. A eficácia destas medidas, contudo, dependerá da capacidade de transformar recomendações — muitas das quais já constavam de inquéritos anteriores, como o de Shrewsbury em 2022 — em mudanças estruturais na governação clínica e na responsabilização.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Uma investigação independente no Reino Unido documentou mais de 500 casos de danos ou mortes evitáveis entre mães e bebês nos hospitais de Nottingham. A investigação, a maior da história do NHS, abrange um período de 13 anos. As conclusões são apresentadas de forma neutra e factual, sem condenação explícita.
Um relatório contundente expõe uma cultura tóxica e desdenhosa em um trust hospitalar do Reino Unido, levando a centenas de mortes e lesões evitáveis. O escândalo é enquadrado como uma falha sistêmica do NHS em proteger as mulheres, com relatos angustiantes de famílias ignoradas. O tom é de indignação e exige mudanças urgentes.
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