
Pressão de Washington sobre Anthropic leva à abertura de escritório em Seul
Restrições a modelos de IA de ponta, suspeitas de vínculos com a China e bloqueios de grandes bancos em Hong Kong reconfiguram o mapa da inteligência artificial.
A decisão da administração Trump de restringir o acesso de estrangeiros aos modelos mais avançados da Anthropic — Fable 5 e Mythos 5 — desencadeou uma reação estratégica da empresa: a abertura de um escritório em Seul. A medida, anunciada na quinta-feira, surge após Washington ter ordenado a suspensão do acesso a esses sistemas de inteligência artificial por receios de que tecnologia sensível pudesse escapar para a China através de um cliente sul-coreano. A Anthropic, que já considerava a Coreia do Sul um dos seus mercados de expansão mais rápida, vê agora no país uma base para contornar as limitações impostas pelo controlo de exportações e manter a proximidade com parceiros asiáticos.
O epicentro da controvérsia está numa empresa de telecomunicações sul-coreana não identificada oficialmente, mas que fontes em Washington e Seul associam à SK Telecom. A operadora, que havia anunciado acesso antecipado ao modelo Mythos 5 através do programa Project Glasswing, nega qualquer ligação à China e sublinha que a sua infraestrutura de rede não utiliza equipamentos da Huawei. O episódio expôs a fragilidade dos mecanismos de verificação: a Anthropic havia submetido uma lista de 111 organizações para acesso prioritário, posteriormente ampliada para cerca de 150 entidades em 15 países, incluindo a Samsung Electronics e a SK Hynix. A desconfiança das autoridades norte-americanas sobre a capacidade da empresa de proteger informações sensíveis levou ao bloqueio total do acesso a não-americanos, afetando inclusive parceiros sul-coreanos sem qualquer relação com Pequim.
O efeito dominó estendeu-se ao setor financeiro. O JPMorgan Chase e o Goldman Sachs proibiram os seus funcionários em Hong Kong de utilizar os modelos Claude da Anthropic, interpretando de forma estrita as cláusulas de licenciamento que vedam o uso na China continental. A medida, revelada pelo Financial Times, reflete o nervosismo das instituições financeiras globais perante o escrutínio cada vez mais intenso sobre a utilização de inteligência artificial fora dos Estados Unidos. Paralelamente, a Casa Branca emitiu um ultimato à Anthropic: só levantará as restrições se a empresa corrigir vulnerabilidades de “jailbreaking” — técnicas que permitem contornar as barreiras de segurança dos modelos através de comandos de texto. A administração Trump deixou de lado o debate sobre a real dimensão dos riscos e passou a exigir ações concretas de cibersegurança.
Na perspetiva de Brasília e de Lisboa, o caso ilustra a crescente securitização da inteligência artificial e os seus potenciais impactos para países lusófonos. O controlo de exportação de modelos fundacionais pode, no futuro, condicionar o acesso de empresas e centros de investigação no Brasil, em Portugal e em África a tecnologias de ponta, forçando uma dependência de soluções chinesas ou europeias. Observadores africanos de língua portuguesa, como em Moçambique e Angola, notam que a exclusão digital pode agravar-se se as grandes potências passarem a tratar a IA como um bem estratégico sujeito a embargos. A abertura do escritório de Anthropic em Seul, longe de ser apenas uma operação comercial, sinaliza uma nova fase de fragmentação tecnológica global, onde a geopolítica redefine o mapa da inovação.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Washington reforça o controle sobre as exportações de IA, forçando empresas como a Anthropic a buscar refúgio em Seul. Grandes bancos dos EUA bloqueiam o acesso a modelos avançados em Hong Kong, alimentando suspeitas de uma cruzada tecnológica contra a China.
A Casa Branca emite um ultimato à Anthropic: corrigir falhas de segurança antes de liberar modelos no exterior. Enquanto isso, grandes bancos de investimento estendem a proibição de acesso à IA para funcionários em Hong Kong, em meio à escalada das tensões EUA-China.
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