
Plataformas usam dados de desempenho como garantia para crédito a entregadores, e modelo avança na América Latina
Relatório do banco central argentino mostra que o endividamento de repartidores com os próprios aplicativos subiu 122% em 2025, enquanto iniciativas semelhantes chegam à Colômbia.
O volume de entregadores endividados com as plataformas para as quais trabalham cresceu 122% na Argentina ao longo de 2025, revelou o Banco Central da República Argentina (BCRA) em seu informe sobre provedores não financeiros de crédito. O salto sucede uma alta de 177% entre 2023 e 2024 e coloca números sobre um mecanismo que já começa a ser replicado na Colômbia. A dívida média dos repartidores monotributistas atingiu 900 mil pesos argentinos, enquanto os comerciantes que também tomam crédito das mesmas plataformas devem, em média, 6,3 milhões de pesos.
A engrenagem se apoia no que o BCRA chamou de “colateral digital”. Diferentemente de um banco, que exige holerites e histórico de crédito, o aplicativo conhece há quanto tempo o entregador está conectado, quantos pedidos aceitou, qual foi sua receita e como os usuários o avaliaram. Com base nesse perfil de desempenho, a plataforma define valor, prazo e o percentual da renda futura que será retido a cada entrega para quitar as parcelas. A empresa PedidosYa, por exemplo, concedeu 57 mil créditos totalizando 84 milhões de dólares, com prazo de seis meses e prestação limitada a 30% do que o trabalhador gera dentro do app.
Sindicatos argentinos, como o Sitrarepa, descrevem um processo de endividamento estrutural que aprofunda a precariedade. A dirigente Belén D’Ambrosio relatou que há taxas de juros de até 700% ao ano e que colegas estendem a jornada para dez ou doze horas diárias apenas para cobrir os descontos automáticos. Na Colômbia, onde produtos similares já são oferecidos, o debate regulatório ainda é incipiente, mas a replicação do modelo acende alertas sobre a dependência financeira de trabalhadores sem acesso a crédito bancário tradicional.
Esse uso intensivo de dados transacionais para ofertar serviços financeiros não se restringe às entregas. No Quênia, a autoridade tributária (KRA) cruza faturas eletrônicas, registros aduaneiros e declarações de empregadores para pré-preencher as declarações de imposto de renda, reduzindo a declaração voluntária a um exercício de confirmação. No Brasil, plataformas como a Consumer agregam programas de fidelidade, cashback e cardápios digitais para que pequenos restaurantes retenham clientes e diminuam a dependência dos marketplaces de delivery, que concentram 54% do faturamento com entregas no país, segundo a Abrasel. Na Indonésia, a digitalização do zakat e da sedekah busca ampliar a transparência e a eficácia da arrecadação por meio de rastreamento em tempo real e análise de dados de doadores e beneficiários.
O próximo marco a observar é o avanço da regulação sobre o crédito ofertado por plataformas não financeiras na América Latina. Enquanto o BCRA consolida os números de 2025, o debate sindical pressiona por limites estatais às taxas e aos mecanismos de cobrança automática, e a chegada do modelo à Colômbia testa a capacidade dos marcos legais existentes de enquadrar um mercado que cresce ancorado na informação gerada pelo próprio trabalho.
| Imprensa latino-americana | −0.70 | critical |
|---|---|---|
| Imprensa africana subsaariana | +0.10 | neutral |
| Imprensa do Sudeste Asiático | +0.50 | aligned |
As plataformas de entrega transformam dados comportamentais em ferramentas de crédito, prendendo os trabalhadores em dívidas crescentes.
O bloco constrói credibilidade citando dados oficiais (BCRA) e percentagens precisas, transformando um fenômeno empresarial em um problema social.
O bloco omite os potenciais benefícios para os trabalhadores que poderiam obter crédito sem garantia, e não discute o quadro regulatório que permite esse modelo.
A autoridade fiscal queniana usa dados digitais para automatizar a conformidade, sem necessidade de inspeções.
O bloco legitima a mudança descrevendo um processo gradual e baseado em dados, sem tons alarmistas, normalizando a vigilância fiscal.
O bloco não menciona riscos de privacidade ou o uso de dados por plataformas privadas para crédito, como destacado no bloco latino-americano.
A Indonésia digitaliza o zakat e os impostos para aumentar a transparência e reduzir a pobreza.
O bloco usa linguagem positiva e voltada para o futuro, associando a digitalização a valores religiosos e sociais, tornando a mudança desejável.
O bloco omite a discussão sobre possíveis desigualdades no acesso digital ou o uso de dados para controle social, presentes em outros blocos.
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