
O manual que deu prazer a uma deputada e o exame adiado por um funeral
Da Rússia ao Irão, passando pelos Emirados e pelo Brasil, o final do ano letivo revela como calendários e currículos se moldam a valores nacionais e a comoções coletivas.
No palco do Fórum Jurídico Internacional de São Petersburgo, o clarão dos fotógrafos iluminou duas capas ainda por estrear nas mochilas russas. O assistente presidencial Vladimir Medinsky e o ministro da Educação, Sergei Kravtsov, seguravam os novos manuais de Estudos Sociais para o 9.º e o 10.º anos, enquanto Medinsky classificava o livro anterior como “mal sucedido” e garantia que este, editado pelo vice-presidente do Conselho de Segurança, Dmitry Medvedev, era “melhor”. Na mesma sala, a vice-presidente da Duma, Irina Yarovaya, confessou ter lido o volume “com grande interesse profissional e prazer humano”, uma frase que transformou um compêndio escolar em objeto de afeto político.
A cena condensa uma reforma mais ampla do ensino russo, que a partir de setembro de 2026 reduzirá Estudos Sociais de seis para três anos letivos, libertando horas para a História. O novo programa, descrito por responsáveis em Moscovo como um “curso aplicado e muito afinado”, organiza-se em cinco eixos — do “Homem e Sociedade” à “Rússia a caminho do futuro” — e inclui parágrafos sobre valores tradicionais, críticas às elites ocidentais e definições de “desinformação” e “fake”. O exame nacional (EGE) da disciplina só será alterado dentro de dois anos, mas a mensagem já circula: o conhecimento abstrato cede lugar a uma literacia cívica alinhada com a ideia de um sistema educativo “soberano”.
Enquanto a Rússia reescreve os seus manuais, outros países ajustam calendários sob o peso de acontecimentos muito concretos. Nos Emirados Árabes Unidos, esta quarta-feira arrancaram os exames eletrónicos de final de ano para alunos do 5.º ao 12.º ano, com escolas a testar servidores e a pedir aos pais “ambientes domésticos tranquilos”. No Bangladesh, as provas semestrais foram adiadas três dias por “razões inevitáveis”. Em Teerão, a Universidade Shahid Beheshti comunicou que os exames finais do segundo semestre começariam duas semanas mais tarde, devido à coincidência com o funeral de um “líder mujahid mártir da Revolução Islâmica” e com o teste nacional de mestrado. No Brasil, o Ministério da Educação divulgou o desempenho das escolas no Enem 2025, permitindo às famílias consultar médias por colégio e bairro, num exercício de transparência que alimenta escolhas e comparações.
Observadores em Lisboa e em São Paulo notam que estes episódios, aparentemente dispersos, partilham um ritmo comum: o calendário escolar já não é apenas uma sequência de dias letivos, mas um termómetro de prioridades coletivas. Na Rússia, o manual torna-se veículo de uma visão de mundo; no Irão, o luto nacional suspende a avaliação académica; no Golfo, a digitalização das provas reflete uma aposta na modernização controlada; no Brasil, a publicação de resultados transforma a nota numa ferramenta de escrutínio social. Em todos os casos, o estudante se descobre a meio caminho entre o currículo prescrito e a imprevisibilidade da história a acontecer.
No final da apresentação em São Petersburgo, os novos manuais foram guardados em pastas oficiais, enquanto a milhares de quilómetros, em Dubai, um adolescente abria o portátil para iniciar o exame de Ciências. Sobre a mesa, o ecrã de boas-vindas pedia silêncio e concentração; na capa do livro russo, a secção “Rússia a caminho do futuro” aguardava o outono. Dois objetos, duas promessas de conhecimento, separados pela geografia mas unidos pela mesma certeza: a escola, em 2026, continua a ser o lugar onde o mundo se explica — e, por vezes, se interrompe.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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No Irã, os exames universitários foram adiados para permitir a participação no funeral de um líder revolucionário, entrelaçando dever político e tradição. O comunicado oficial da universidade justifica o adiamento com eventos nacionais e logísticos, sem tom polêmico.
Na Rússia, o ministério da Educação apresentou novos livros didáticos de estudos sociais como um triunfo de conteúdo prático e alinhado ao Estado, anunciando futuras mudanças no exame nacional. A narrativa enfatiza a modernização e o enraizamento patriótico, ignorando qualquer interrupção global por funerais políticos.
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