
No mar poluído de Gaza, a única fuga; em Bruxelas, o debate sobre bistecas veganas
Enquanto milhões em Gaza se refugiam num Mediterrâneo contaminado, a União Europeia aprova novas regras para alimentos vegetais e técnicas genómicas, desenhando dois mundos à beira do mesmo verão.
Sobre a areia de Gaza City, três jovens estendem as pranchas, aquecem os músculos e preparam o equipamento. Falta a cera específica para o surf — inexistente no território —, por isso recorrem à cera de vela, esfregando-a com cuidado sobre a fibra. Tahseen Abu Assi, 23 anos, aprendeu com o pai e o avô. “Quando apanhas uma onda, deslizas sobre ela, essa sensação não se consegue descrever”, diz. Mesmo com a guerra, os bombardeamentos e a destruição, “continuamos com este desporto, porque nos deixa respirar e nos faz sentir seguros”.
A praia que antes era local de lazer transformou-se no único refúgio para centenas de milhares de deslocados. Quase toda a população de Gaza foi obrigada a abandonar as suas casas durante dois anos de guerra entre Israel e o Hamas. Agora, amontoa-se numa estreita faixa costeira, em tendas e edifícios danificados. “A única saída na Faixa de Gaza, de norte a sul, é o mar”, afirma Wadie al-Ras, 36 anos, em pé na margem. As temperaturas matinais rondam os 30 graus, mas dentro das tendas o calor é muito pior. Nahed Hamouda, 56 anos, abana-se com um pedaço de cartão: “Não há eletricidade, não há ventoinha, não há água, nem a comida se consegue comer”. A água do mar, porém, está longe de ser um alívio limpo: recebe esgotos e resíduos, resultado do colapso das infraestruturas que serviam mais de dois milhões de pessoas.
Um relatório do Conselho Norueguês para os Refugiados, divulgado a 18 de junho, estima que cerca de um milhão de civis ainda vivem em tendas no início do verão de 2026. São 170 mil agregados familiares em tendas, outros 5 mil a dormir ao ar livre e 52 mil em abrigos sobrelotados. A organização alerta que o calor estival pode ser letal, com temperaturas a atingir 34,5 °C no mês mais quente. “É um ultraje que famílias em Gaza, após meses de deslocação e perda, enfrentem agora o calor do verão em tendas improvisadas porque Israel continua a restringir os materiais de abrigo”, declarou Jan Egeland, secretário-geral do NRC. Apesar dos esforços de coordenação humanitária, faltam itens básicos como lonas plásticas, contraplacado e corda para 850 mil pessoas.
Para os surfistas de Gaza, o mar é também memória e resistência. Antes da guerra, existia uma equipa de 17 praticantes; hoje restam três. Abdel Rahim Al-Ustadh, 19 anos, segura uma prancha vermelha e azul com quase duas décadas de uso. “Tratamos estas pranchas como grandes tesouros”, explica, “porque perder uma ou vê-la confiscada ameaça a nossa capacidade de continuar”. Khalil Abu Jiyab, 18 anos, surfa há 13 e confessa que os seus sonhos quase se despedaçaram, mas ainda imagina um dia competir fora de Gaza. “Não há nada em Gaza que se possa realmente esperar, exceto o mar”, diz. “A única saída em Gaza é o mar; sem ele, a vida teria desaparecido há muito tempo.”
A milhares de quilómetros dali, em Bruxelas, a União Europeia tomava nas mesmas semanas decisões sobre o futuro da alimentação. Aprovou novas regras para as chamadas “bistecas veganas” e para as novas técnicas genómicas aplicadas à agricultura, num esforço de modernização do setor. Enquanto os reguladores europeus debatem a rotulagem de alternativas vegetais à carne e a edição genética de culturas, nas margens de Gaza a discussão é outra: como sobreviver a mais um verão sem água potável, sem sombra e sem a certeza de que o mar não trará também doenças. A mesma estação que aquece as praias do Mediterrâneo encontra, em latitudes tão próximas, dois mundos separados por um abismo de circunstâncias.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Com o aumento das temperaturas de verão e a escassez de água doce, os deslocados de Gaza fogem de suas tendas sufocantes para a costa mediterrânea poluída para se banhar e lavar roupa. Para alguns, o surf oferece uma sensação indescritível de liberdade e uma breve fuga das dificuldades da guerra.
Nos escombros de Gaza, um grupo de jovens surfistas carrega suas pranchas por entre prédios destruídos para encontrar consolo nas ondas. Eles descrevem o esporte como uma forma de respirar, uma sensação indescritível que os eleva momentaneamente acima da devastação ao redor.
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