Entrar
Edição das 20:00 CETdomingo, 21 de junho de 2026
307 veículos · 17 idiomas144 briefing hoje
Sociedade & Culturadomingo, 21 de junho de 2026

No Dia do Pai, líderes árabes recordam o patriarca fundador como filho

Enquanto nos Emirados a efeméride se confunde com o culto do Estado, na Nigéria e na Indonésia os pais lidam com a pressão econômica e o afastamento emocional.

Na fotografia a preto e branco, partilhada a 21 de junho nas redes sociais, o xeque Zayed bin Sultan Al Nahyan sorri largamente, enquanto o filho, ainda criança, ergue o olhar para ele com uma expressão de admiração e alegria. A imagem, divulgada pelo Presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohamed bin Zayed, no Dia do Pai, condensa uma herança que se confunde com a própria fundação do país. Não é apenas um registo familiar: é a representação de um legado político que, uma geração depois, continua a ser evocado pelos filhos, hoje no poder, como a argamassa entre o afeto privado e a identidade nacional.

Em poucas horas, as contas oficiais dos líderes emiratis encheram-se de homenagens ao “pai Zayed”, falecido em 2004. O xeque Hamdan bin Mohammed, príncipe herdeiro do Dubai, publicou um vídeo em que surge em criança ao lado do pai, o atual vice-presidente e primeiro-ministro, Mohammed bin Rashid Al Maktoum, com a legenda “Quem é como tu, meu pai?”. O seu irmão, Maktoum bin Mohammed, escreveu que a maior felicidade de um pai é ver o sucesso dos filhos, e que eles “nasceram para continuar um sistema cujo alicerce é a bondade e a felicidade do povo”. Esta fusão entre o dever público e a devoção filial não é retórica acessória: 2026 foi declarado nos Emirados o “Ano da Família”, com políticas que reforçam o papel da unidade familiar como base da sociedade.

Fora dos palácios, o Dia do Pai revela outras tensões. Em Lagos, na Nigéria, o jornal Sunday Tribune conta a rotina de Tunde Adeyemi, que acorda às cinco da manhã a calcular as propinas de três filhos, enquanto a inflação galopante corrói o poder de compra. “Ainda nem entraram de férias e eu já estou a fazer contas”, desabafa. A mesma reportagem cita dados da agência noticiosa NAN: muitos pais nigerianos sentem que o seu valor é medido quase exclusivamente pela capacidade financeira, num país onde o salário mínimo duplicou nominalmente mas perdeu quase metade do valor real em cinco anos. Na Indonésia, a agência Antara divulga que uma em cada quatro crianças cresce sem a presença ativa do pai — não por orfandade, mas pelo distanciamento emocional de homens absorvidos pelo trabalho ou por uma cultura que identifica a paternidade quase só com o sustento material. Em Argel, um colunista ironiza a origem da data, que em França teria sido promovida por uma marca de isqueiros nos anos 1950, lamentando que a figura de São José, pai de Jesus, tenha sido substituída por um “briquet”.

Para um observador lusófono, estas expressões do Dia do Pai ecoam com diferenças de ênfase. No Brasil, a data é celebrada no segundo domingo de agosto com forte apelo comercial e campanhas que ora exaltam a paternidade afetiva, ora denunciam a ausência paterna — o país tem mais de 20 milhões de crianças sem o nome do pai na certidão de nascimento, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça. Em Portugal, o 19 de março (dia de São José) mantém a raiz católica que o colunista argelino reclama, embora as mensagens políticas sejam raramente personalizadas na figura de um governante-filho. O que singulariza a celebração nos Emirados é a naturalidade com que o Estado se apropria do afeto filial para reforçar uma narrativa de continuidade dinástica. Não se trata de propaganda, mas de um imaginário em que a legitimidade de governar se herda e se exerce como uma forma de paternidade ampliada.

As imagens que restam do dia são eloquentes. O Presidente Mohamed bin Zayed pediu a bênção divina para “todos os pais do mundo” e recordou Zayed como “a personificação da paternidade que construiu uma nação com sabedoria, compaixão e responsabilidade”. Mas a foto do menino que olha para cima, partilhada por um chefe de Estado de 65 anos, talvez seja o comentário mais silencioso e poderoso. Ela lembra que, mesmo no mais alto exercício do poder, ninguém deixa de ser filho. E que, neste dia, a homenagem pública se alimenta de um gesto que qualquer família reconheceria: a vontade de mostrar ao mundo aquele que, por um instante, foi apenas pai.

Como a mesma história é contada em outros lugares.

2 grupos editoriais · 1 idiomas

56%
TomTemperaturaFocoPosicionamentoHorizonte
Stampa del Golfo araboStampa atlantica / anglosfera
Stampa del Golfo arabo
trionfopaternalismo

UAE leaders posted heartfelt messages on Father's Day, recalling the legacy of founding fathers Sheikh Zayed and Sheikh Rashid. They emphasized the role of fathers as pillars of family and nation, using personal childhood photos to illustrate the bond. The tone is reverent and patriotic, celebrating the continuity of leadership and values.

Stampa atlantica / anglosfera
pragmatismotrionfo

The Atlantic piece links Father's Day to the Founding Fathers, arguing that strong nations are built on strong families with engaged fathers. It suggests that the true foundation of America's strength is not in Washington but at home, emphasizing the need for present father figures.

Artigos relacionados

Ler mais
Últimas notícias
Netanyahu mantém tropas no Líbano “enquanto for necessário”, e Hezbollah ameaça responder·Egito e Nova Zelândia empatam 1-1 e mantêm indefinição no Grupo G·Vance fala em 'grandes progressos' com Irão, mas ameaças de Trump levam a protesto·Agentes de IA já se autoprogramam e redefinem o valor do julgamento humano·Teste de saliva detecta falta de sono com 94% de precisão; psicologia destaca o valor do tédio·Dia dos Pais: as escolhas afetivas de Meghan e Gisele nas montras digitais·Mbappé caça recorde de gols e França busca selar vaga contra Iraque no Mundial·O ‘pasta pomodoro’ e o limão: a moda redescobre o gosto do essencial·Netanyahu mantém tropas no Líbano “enquanto for necessário”, e Hezbollah ameaça responder·Egito e Nova Zelândia empatam 1-1 e mantêm indefinição no Grupo G·Vance fala em 'grandes progressos' com Irão, mas ameaças de Trump levam a protesto·Agentes de IA já se autoprogramam e redefinem o valor do julgamento humano·Teste de saliva detecta falta de sono com 94% de precisão; psicologia destaca o valor do tédio·Dia dos Pais: as escolhas afetivas de Meghan e Gisele nas montras digitais·Mbappé caça recorde de gols e França busca selar vaga contra Iraque no Mundial·O ‘pasta pomodoro’ e o limão: a moda redescobre o gosto do essencial·
Atualizado 17:031 idioma · 4 veículos
AnteriorSociedade & CulturaPróximo
4 veículos|1 idioma|4 min de leitura
domingo, 21 de junho de 2026

No Dia do Pai, líderes árabes recordam o patriarca fundador como filho

Enquanto nos Emirados a efeméride se confunde com o culto do Estado, na Nigéria e na Indonésia os pais lidam com a pressão econômica e o afastamento emocional.

Na fotografia a preto e branco, partilhada a 21 de junho nas redes sociais, o xeque Zayed bin Sultan Al Nahyan sorri largamente, enquanto o filho, ainda criança, ergue o olhar para ele com uma expressão de admiração e alegria. A imagem, divulgada pelo Presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohamed bin Zayed, no Dia do Pai, condensa uma herança que se confunde com a própria fundação do país. Não é apenas um registo familiar: é a representação de um legado político que, uma geração depois, continua a ser evocado pelos filhos, hoje no poder, como a argamassa entre o afeto privado e a identidade nacional.

Em poucas horas, as contas oficiais dos líderes emiratis encheram-se de homenagens ao “pai Zayed”, falecido em 2004. O xeque Hamdan bin Mohammed, príncipe herdeiro do Dubai, publicou um vídeo em que surge em criança ao lado do pai, o atual vice-presidente e primeiro-ministro, Mohammed bin Rashid Al Maktoum, com a legenda “Quem é como tu, meu pai?”. O seu irmão, Maktoum bin Mohammed, escreveu que a maior felicidade de um pai é ver o sucesso dos filhos, e que eles “nasceram para continuar um sistema cujo alicerce é a bondade e a felicidade do povo”. Esta fusão entre o dever público e a devoção filial não é retórica acessória: 2026 foi declarado nos Emirados o “Ano da Família”, com políticas que reforçam o papel da unidade familiar como base da sociedade.

Fora dos palácios, o Dia do Pai revela outras tensões. Em Lagos, na Nigéria, o jornal Sunday Tribune conta a rotina de Tunde Adeyemi, que acorda às cinco da manhã a calcular as propinas de três filhos, enquanto a inflação galopante corrói o poder de compra. “Ainda nem entraram de férias e eu já estou a fazer contas”, desabafa. A mesma reportagem cita dados da agência noticiosa NAN: muitos pais nigerianos sentem que o seu valor é medido quase exclusivamente pela capacidade financeira, num país onde o salário mínimo duplicou nominalmente mas perdeu quase metade do valor real em cinco anos. Na Indonésia, a agência Antara divulga que uma em cada quatro crianças cresce sem a presença ativa do pai — não por orfandade, mas pelo distanciamento emocional de homens absorvidos pelo trabalho ou por uma cultura que identifica a paternidade quase só com o sustento material. Em Argel, um colunista ironiza a origem da data, que em França teria sido promovida por uma marca de isqueiros nos anos 1950, lamentando que a figura de São José, pai de Jesus, tenha sido substituída por um “briquet”.

Para um observador lusófono, estas expressões do Dia do Pai ecoam com diferenças de ênfase. No Brasil, a data é celebrada no segundo domingo de agosto com forte apelo comercial e campanhas que ora exaltam a paternidade afetiva, ora denunciam a ausência paterna — o país tem mais de 20 milhões de crianças sem o nome do pai na certidão de nascimento, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça. Em Portugal, o 19 de março (dia de São José) mantém a raiz católica que o colunista argelino reclama, embora as mensagens políticas sejam raramente personalizadas na figura de um governante-filho. O que singulariza a celebração nos Emirados é a naturalidade com que o Estado se apropria do afeto filial para reforçar uma narrativa de continuidade dinástica. Não se trata de propaganda, mas de um imaginário em que a legitimidade de governar se herda e se exerce como uma forma de paternidade ampliada.

As imagens que restam do dia são eloquentes. O Presidente Mohamed bin Zayed pediu a bênção divina para “todos os pais do mundo” e recordou Zayed como “a personificação da paternidade que construiu uma nação com sabedoria, compaixão e responsabilidade”. Mas a foto do menino que olha para cima, partilhada por um chefe de Estado de 65 anos, talvez seja o comentário mais silencioso e poderoso. Ela lembra que, mesmo no mais alto exercício do poder, ninguém deixa de ser filho. E que, neste dia, a homenagem pública se alimenta de um gesto que qualquer família reconheceria: a vontade de mostrar ao mundo aquele que, por um instante, foi apenas pai.

Divergência das fontes

Sociedade & Cultura · 4 veículos · 1 idioma

56%Alta

Quanto as fontes relatam os mesmos fatos de maneira diferente.

Como se dividem

Favorável43%
Neutro7%
Crítico50%

Como a mesma história é contada em outros lugares.

2 grupos editoriais · 1 idiomas

TomTemperaturaFocoPosicionamentoHorizonte
Stampa del Golfo araboStampa atlantica / anglosfera
Stampa del Golfo arabo
trionfopaternalismo

UAE leaders posted heartfelt messages on Father's Day, recalling the legacy of founding fathers Sheikh Zayed and Sheikh Rashid. They emphasized the role of fathers as pillars of family and nation, using personal childhood photos to illustrate the bond. The tone is reverent and patriotic, celebrating the continuity of leadership and values.

Stampa atlantica / anglosfera
pragmatismotrionfo

The Atlantic piece links Father's Day to the Founding Fathers, arguing that strong nations are built on strong families with engaged fathers. It suggests that the true foundation of America's strength is not in Washington but at home, emphasizing the need for present father figures.

Esta notícia apareceu em

4 veículos · 1 idioma

Artigos relacionados

Geopolítica & Política

Trump ameaça Irã e negociações de paz são abaladas na Suíça

10 idiomas · 40 veículos

Esporte

Serena Williams confirma regresso aos singulares em Wimbledon com convite especial

9 idiomas · 29 veículos

Geopolítica & Política

Morre Ramiro Valdés, um dos últimos comandantes da Revolução Cubana, aos 94 anos

6 idiomas · 21 veículos

Ler mais