
Na Penha, o estrondo de 122 mortes ecoa sobre um país que se sente mais seguro
Enquanto os homicídios recuam ao menor nível em 13 anos, os feminicídios, a letalidade policial e os furtos silenciosos de celulares revelam as novas paisagens íntimas da violência no Brasil.
Na madrugada de 29 de outubro de 2025, os becos do Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, foram sacudidos por uma operação policial que resultou em 122 mortos — 117 civis e 5 agentes. O episódio, apontado pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública como um dos mais letais da história recente do país, não é um ponto fora da curva. Ao contrário, condensa as contradições de um Brasil que, ao mesmo tempo, celebra a menor taxa de homicídios desde 2012 e convive com o crescimento de outras formas de violência, muitas vezes praticadas sem testemunhas.
O anuário, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que as mortes violentas intencionais caíram 8,2% em 2025, para 40.775 vítimas — um recuo de três décadas em relação ao pico histórico. Contudo, essa melhora no retrato da criminalidade urbana esconde um deslocamento profundo. A violência que arrefece nas esquinas parece ter encontrado refúgio dentro das casas e na intimidade digital. Os feminicídios bateram recorde pelo quarto ano consecutivo: 1.571 mulheres foram mortas por serem mulheres, um aumento de 4% em relação a 2024. Em 62,5% dos casos, o crime ocorreu na residência da vítima; em 79,8%, o autor era companheiro ou ex-companheiro.
Na análise de especialistas de Brasília, essa dissociação entre a queda geral dos homicídios e a escalada da violência de gênero sinaliza mais do que uma melhora nos registros. “O país está conseguindo reduzir a violência letal como um todo, mas não a violência que atinge a mulher pelo fato de ser mulher”, observa a representante da ONU Mulheres no Brasil, Gallianne Palayret. Para Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum, o crescimento dos feminicídios não pode ser atribuído apenas à maior notificação: “Há algo muito maior do que os números conseguem mostrar”. Ao mesmo tempo, as tentativas de feminicídio subiram 5,9%, totalizando 4.189 casos — quase três sobreviventes para cada morte consumada.
Outra face dessa mutação é a letalidade policial. Em 2025, 6.602 pessoas foram mortas por intervenções das forças de segurança, alta de 5,4% e o maior valor da série histórica iniciada em 2016. Significa que, a cada dia, 18 brasileiros perderam a vida em ações policiais. No Amapá, estado que lidera o índice pelo sétimo ano consecutivo, a taxa chegou a 17,1 mortes por 100 mil habitantes. Na Bahia, foram 1.570 vítimas — praticamente um quarto do total nacional. “Uma polícia que mata mais não é uma polícia mais eficiente”, pondera David Marques, gerente de programas do Fórum. O dado ecoa a Operação Contenção: o Rio de Janeiro, onde a letalidade policial respondeu por quase todo o crescimento das mortes violentas, viu um em cada cinco assassinatos ser cometido por agentes do Estado.
Enquanto isso, na esfera dos delitos patrimoniais, uma transformação sutil embaralha as percepções de segurança. Pela primeira vez desde o início da série, o furto de celulares superou o roubo: 61% dos 830.890 aparelhos subtraídos em 2025 desapareceram sem qualquer ameaça ou violência direta. O roubo, que exige contato com a vítima e é mais suscetível a câmeras e reações, recuou 18,6%, enquanto o furto, cometido em transportes lotados ou com a vítima distraída, manteve-se estável. Em São Luís, a taxa de ocorrências foi de 1.517 por 100 mil habitantes — mais de quatro vezes a média nacional. “É um crime que gera uma sensação de pânico muito grande”, avalia Samira Bueno, mas que agora se consuma muitas vezes sem que o dono perceba o momento exato da perda.
O mosaico de dados revela um país onde o medo se atomiza. Crianças de 5 a 9 anos são as principais vítimas de maus-tratos dentro de casa; homens negros jovens continuam a morrer em taxas desproporcionais nas ruas e nas operações policiais; mulheres negras representam 65% das vítimas de feminicídio. Na paisagem digital, proliferam discursos que romantizam o controle econômico e sexual, espelhando o que o anuário chama de “mercado de afetos”. Ao fim, o silêncio que se instala depois que o helicóptero se afasta ou o celular some do bolso talvez seja a metáfora mais exata dessa violência que se dispersa e se oculta, mas não diminui.
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