
Moscovo abandona expectativa de acordos de Anchorage e aposta na vitória militar, anuncia assessor de Putin
Yuri Ushakov afirmou que a Rússia já não aguarda o cumprimento dos entendimentos alcançados na cimeira com Trump, em 2025, e concentra-se nos seus objectivos estratégicos.
De acordo com declarações do assessor presidencial russo Yuri Ushakov, divulgadas na sexta-feira pelo canal Vesti, Moscovo já não aguarda o cumprimento dos acordos alcançados na cimeira de Anchorage, em agosto de 2025, entre Vladimir Putin e Donald Trump. «Não esperamos o cumprimento desses entendimentos, esperamos a vitória», afirmou, sinalizando o abandono da via diplomática e a aposta na conquista militar dos seus objectivos estratégicos na Ucrânia.
Segundo Ushakov, «apenas uma das partes» – a Rússia – permanece fiel ao que foi discutido, enquanto a outra (os Estados Unidos) «não está verdadeiramente em condições de percorrer a sua parte do caminho». O conteúdo concreto desses entendimentos nunca foi revelado oficialmente, mas, na leitura de analistas ocidentais, o ponto central teria sido a aceitação tácita por parte de Washington do controlo russo sobre a totalidade do Donbass – algo que Kiev rejeitou de imediato e que a administração Trump, posteriormente, negou ter acordado. Para o Governo ucraniano, a declaração confirma que Moscovo só aceita uma paz que consagre as anexações territoriais de 2014 e 2022.
A evolução da retórica do Kremlin é monitorizada com atenção nas capitais europeias. Durante meses, altos funcionários russos invocaram o «espírito de Anchorage» como referencial para uma saída negociada. Contudo, desde o início de 2026, os tons tornaram-se mais cépticos – o próprio ministro dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov, admitiu que esse espírito se «dissipava» –, e as declarações de Ushakov representam o abandono definitivo dessa narrativa. Em Lisboa, fontes diplomáticas sublinham que a União Europeia mantém o apoio militar e financeiro à Ucrânia, precisamente por considerar que Moscovo não demonstra vontade real de ceder.
Na perspetiva de Moscovo, a evolução da frente de batalha tornou dispensável qualquer compromisso. O Kremlin alega que as suas forças avançam constantemente nos oblasts de Donetsk, Lugansk, Zaporíjia e Kherson, e que a vitória militar é o único cenário realista. Esta leitura é partilhada por comentadores militares russos, que veem na resistência ucraniana uma campanha fadada ao fracasso sem um reforço substancial da ajuda ocidental.
Para o Brasil, que desde o início do conflito defende uma solução negociada e condena a imposição de sanções unilaterais, o impasse e o endurecimento das posições representam um retrocesso. Em declarações recentes, o Governo brasileiro voltou a apelar ao diálogo, mas diplomatas em Brasília reconhecem que a janela para a mediação internacional se estreitou. Na prática, as negociações formais estão paralisadas, e não há indicação de uma nova iniciativa diplomática. Enquanto isso, a Rússia prepara uma nova fase ofensiva no Donbass, e a Ucrânia aguarda a chegada de armamento prometido pelos aliados, num cenário em que o prolongamento do conflito parece inevitável.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A mídia estatal russa apresenta as declarações de Ushakov como prova da determinação de Moscou em alcançar a vitória, descartando os acordos de Anchorage como irrelevantes porque apenas um lado teria cumprido. Eles reforçam a confiança russa, citando avanços constantes na linha de frente e a crença equivocada do Ocidente de que a Rússia pode ser derrotada.
A imprensa continental europeia contextualiza as declarações de Ushakov no cenário de pesados ataques recíprocos e vítimas, interpretando-as como mais um golpe aos esforços diplomáticos. Questiona a essência dos acordos de Anchorage, nunca esclarecidos, e vê a postura russa como um afastamento das negociações.
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