
Morre S. Janaki, a voz que uniu as várias Índias do Sul
Cantora que gravou mais de 40 mil canções em quase duas dezenas de línguas faleceu aos 88 anos em Mysuru, deixando uma herança que transcendeu fronteiras linguísticas e geracionais.
No final da década de 1970, uma sala de cinema em Kerala mergulhou num silêncio hipnótico quando os primeiros acordes de “Mauname” se espalharam pelo recinto. Não era apenas a melodia: a voz que parecia carregar a ressonância de uma tambura transportou a plateia para “outro mundo”, recordaria, décadas depois, o cantor Biju Narayanan. Aquela voz pertencia a S. Janaki, que nos palcos e nos estúdios dispensava o sobrenome — para milhões de indianos, era simplesmente “Janaki Amma”, um tratamento que lhe foi espontaneamente conferido ao longo dos anos, amalgamando respeito e afeto.
Aos 88 anos, na noite de 11 de julho de 2026, essa voz calou-se em definitivo. Internada num hospital de Mysuru com complicações respiratórias e cardíacas, a cantora não resistiu. Nascida a 23 de abril de 1938 no distrito de Guntur, na atual Andhra Pradesh, Janaki estreou-se no cinema em 1957 com o filme tâmil “Vidhiyin Vilayattu”, sem sequer dominar a língua. Desde então, calcula-se que tenha gravado mais de 40 mil canções em cerca de duas dezenas de idiomas — sobretudo tâmil, telugo, canará e malaiala, mas também hindi, oriá, punjabi, bengali e cingalês. A sua versatilidade valeu-lhe quatro prémios nacionais de melhor cantora de playback e uma recusa simbólica: em 2013, rejeitou o Padma Bhushan, considerando que a sua contribuição merecia a mais alta distinção civil indiana, o Bharat Ratna.
O percurso de Janaki confunde-se com a história da música cinematográfica do Sul da Índia. Descoberta pelo compositor T. Chalapathi Rao, rapidamente se impôs sob a batuta de M.S. Viswanathan antes de se tornar a intérprete de eleição de Ilaiyaraaja, que lhe confiou canções como “Annakili Unnai Theduthe”, logo na sua estreia em 1976. A colaboração prolongou-se por décadas e revelou uma capacidade invulgar de imprimir emoção a cada registo: do lamento materno de “Azhagiya Kanne” à sedução velada de “Inji Idupalagi”, Janaki não cantava — representava, segundo muitos realizadores. Mais tarde, voltaria a marcar o repertório de A.R. Rahman, em êxitos como “Margazhi Thingal Allava” e “Ottagathai Kattikko”.
A comoção suscitada pela sua morte extravasou o meio artístico e as divisões linguísticas. O primeiro-ministro Narendra Modi classificou a perda como “irreparável para o mundo da música e da cultura”. Nos estados do Sul, os governos de Tamil Nadu, Karnataka e Andhra Pradesh prestaram homenagens, e o público pôde despedir-se do corpo em Mysuru, antes do funeral numa quinta da família. Nas redes sociais, atores como Chiranjeevi e Trisha sublinharam o modo como Janaki “dava vida” às emoções que representavam no ecrã. Para um país habituado a traduzir a sua diversidade em múltiplos sistemas de estrelas regionais, Janaki foi uma rara figura capaz de unificar plateias — a mesma voz que os telugus reclamavam como filha da terra era simultaneamente património afetivo do imaginário tâmil, canarês e malaiala.
Os seus contemporâneos recordam não só a excelência técnica, mas a postura de quem tratava o talento com despojamento. “Vivia com simplicidade, nunca cobrou cachês exorbitantes nem se gabou dos êxitos”, contou o produtor Balaga Prakash, que a visitara havia pouco. O compositor Vidhyadharan guardou outro sinal dessa ética: após gravar um tema devocional, Janaki insistiu em adiar o segundo para a tarde, convencida de que certas melodias não se cantam mecanicamente, uma atrás da outra. É desse modo, entre o rigor e a graça, que a sua voz permanece — como a daquele primeiro “Singara Velane Deva” que, em 1962, fundiu o seu timbre ao nadaswaram de Karukurichi Arunachalam e inventou uma nova forma de diálogo entre a música clássica e o cinema.
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| Imprensa do Golfo árabe | +0.30 | aligned |
The singer is an irreparable loss to Indian music, and her voice will continue to live in hearts.
Credibility is reinforced through personal testimonies and official tributes, creating a collective empathy that makes the loss universal.
Indian outlets omit trivia such as the deleted scene from the film '96', focusing solely on mourning and legacy.
The passing of the 'Nightingale of South India' marks the end of an era, but her musical contribution remains immortal.
A detached and informative tone is used, interspersed with curious anecdotes like the deleted scene, to maintain reader interest without excessive emotionality.
Gulf outlets omit the emotional reactions of local fans and details of funeral ceremonies, preferring a global perspective.
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