
Israelitas veem polarização interna como maior ameaça à sobrevivência do país
Relatório anual mostra que 55% dos cidadãos consideram o conflito interno mais perigoso que o programa nuclear do Irão, enquanto judeus progressistas nos EUA protestam contra a direita israelita e o antissemitismo cresce na Europa.
O mais recente relatório do Instituto de Políticas do Povo Judeu (JPPI), divulgado em Jerusalém, revela uma mutação profunda no imaginário de ameaças em Israel: 55% da população define a polarização e os conflitos internos como o perigo mais grave para a continuidade do Estado, muito à frente do programa nuclear iraniano (23%) e do conflito com os palestinianos (18%). O estudo, que compila inquéritos e análises do último ano, surge num momento em que a própria coligação governamental amplia clivagens – a legislação que alarga os subsídios de creche a ultraortodoxos que se escusam ao serviço militar foi classificada pela vice-ministra dos Negócios Estrangeiros, Sharren Haskel, como uma «facada nas costas» de quem combate numa guerra em curso. Ao mesmo tempo, analistas em Haifa observam que a participação eleitoral dos cidadãos árabes de Israel, cerca de um quinto do eleitorado, será decisivamente moldada pela ascensão da extrema-direita judaica e pela violência criminosa galopante nas suas comunidades, factores que podem aprofundar a alienação política ou, inversamente, mobilizar um voto de protesto.
A tensão interna extravasa fronteiras. Em Nova Iorque, durante a Parada do Dia de Israel na Quinta Avenida, o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, e outros políticos da direita radical foram recebidos por grupos de judeus progressistas com gritos de «criminoso de guerra» e «vergonha». Os manifestantes denunciavam o que classificam como genocídio em Gaza e rejeitavam a retórica de que a segurança dos judeus da diáspora depende indissociavelmente da força do Estado de Israel. A presença de Smotrich, que insistiu no vínculo inquebrável entre todas as comunidades judaicas e o governo israelita, acentuou o divórcio entre setores expressivos do judaísmo americano e uma administração em Jerusalém cada vez mais percebida como extremista. A recusa de figuras políticas locais, como o deputado Zohran Mamdani, em comparecer ao evento ilustra a erosão de consensos que historicamente blindavam a solidariedade com Israel.
Do outro lado do Atlântico, o impacto desse alheamento mede-se também em atitudes hostis. Um estudo sueco, baseado em inquéritos de 2020 e 2025, detetou um aumento das convicções antissemitas na população e, sobretudo, uma indiferença crescente face a essas ideias. Ainda que diferenciável de uma adesão ativa, a passividade equivale a quase aceitação, notam investigadores em Estocolmo, que associam a deterioração à guerra entre Israel e o Hamas, sem poder datar com exatidão a viragem. Esta evolução europeia contradiz a promessa governamental de que um Israel forte blindaria a segurança dos judeus no mundo – na realidade, as políticas do executivo de direita parecem servir de catalisador para um antissemitismo que também atinge comunidades lusófonas.
Na perspetiva de Brasília e de Lisboa, onde as comunidades judaicas – embora numericamente modestas – acompanham com inquietação a degradação do debate público, a conjuntura revela uma armadilha estratégica. O argumento de que o destino da diáspora está irremediavelmente atado ao de Israel, repetido por Smotrich, vê-se desmentido pela experiência de judeus progressistas que defendem a Palestina e pela escalada de preconceitos na Europa. À medida que a polarização israelita corrói a coesão social e aliena aliados externos, o país arrisca-se a confirmar o diagnóstico dos seus próprios cidadãos: a maior ameaça vem, afinal, de dentro.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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De acordo com um relatório anual do Jewish People Policy Institute, 55% dos israelenses consideram a polarização interna e o risco de guerra civil como a ameaça mais grave à sobrevivência do Estado. As leis da coalizão que beneficiam ultraortodoxos isentos do serviço militar, as tensões árabe-judaicas e as fissuras sobre a atuação de mulheres nas tropas blindadas estão corroendo a coesão nacional mais do que qualquer inimigo externo.
Na parada anual do Dia de Israel em Nova York, ministros e deputados da direita israelense foram recebidos com gritos de 'criminoso de guerra' de comunidades judaicas progressistas que denunciam o genocídio em Gaza. A fratura não só marca a sociedade israelense, como rasga a própria diáspora judaica, com vozes cada vez mais fortes rompendo abertamente com as políticas do Estado judeu.
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