
Iraque e Irão assinam acordos enquanto Bagdad tenta equilíbrio entre Washington e Teerão
A visita do primeiro-ministro iraquiano a Teerão, dias depois de se reunir com Trump, resultou em pactos de transporte e energia, mas o Irão rejeitou qualquer mediação.
O Irão e o Iraque assinaram esta quinta-feira quatro acordos de cooperação durante a visita oficial do primeiro-ministro iraquiano, Ali al-Zayidi, a Teerão, num momento de tensão acrescida entre a República Islâmica e os Estados Unidos. Os documentos, firmados na presença do presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, incluem um acordo de transporte rodoviário de mercadorias, um memorando para a construção da ferrovia Khosravi-Khanaqin-Bagdad, uma geminação entre as duas capitais e um memorando sobre administração pública e formação de recursos humanos. A deslocação ocorre uma semana depois de al-Zayidi ter estado na Casa Branca, onde acordou com Donald Trump a retirada das forças norte-americanas do Iraque até setembro e a transição para uma parceria económica.
Na perspetiva de Teerão, a visita serviu para reafirmar a profundidade dos laços bilaterais e a interdependência securitária. Pezeshkian sublinhou que “a insegurança num dos países tem efeitos diretos no outro” e defendeu a aceleração da execução dos acordos, a elaboração de um plano estratégico abrangente e a limpeza das zonas fronteiriças de “grupos armados de oposição”. Já o primeiro-ministro iraquiano garantiu que “nenhum ponto do território iraquiano será palco de ameaças contra o Irão” e que Bagdad “não aceitará qualquer ação hostil” contra o vizinho, ao mesmo tempo que recordou o apoio iraniano no combate ao Estado Islâmico. A comitiva incluiu vários ministros económicos, sinalizando a prioridade dada à energia e ao comércio.
Apesar das especulações sobre um eventual papel mediador de Bagdad entre Washington e Teerão, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, foi taxativo: “Não precisamos de mediador com os Estados Unidos; o problema é a abordagem americana, não a troca de mensagens.” Araghchi acrescentou que basta Washington “rever as suas políticas” e respeitar os interesses iranianos. A ideia de mediação ganhara força depois de o conselheiro do Líder Supremo, Ali Akbar Velayati, ter classificado a visita de al-Zayidi a Washington como “lamentável e inoportuna”, criticando o que descreveu como inexperiência do primeiro-ministro. Fontes governamentais iraquianas citadas pelo diário libanês An-Nahar indicam, porém, que a agenda incluiu esforços para “reduzir a escalada” e que Bagdad procura consolidar-se como canal de diálogo regional, à semelhança do que fez na reaproximação entre Irão e Arábia Saudita.
A deslocação expõe as linhas de fratura internas no Iraque. Para o investigador curdo Shaho al-Qaradaghi, citado pela Sky News Arabia, a ausência de uma resposta oficial firme às declarações de Velayati reforça a perceção de que o Iraque continua a ser tratado como “quintal” do Irão, e que o sucesso dos acordos com Washington depende da capacidade de Bagdad impor o monopólio estatal das armas. Em contrapartida, o analista político Haidar al-Moussawi sustenta que Teerão apoia a estabilização iraquiana e que o diálogo interno com as fações armadas já regista “flexibilidade” por parte de três grupos, desde que seja garantida a soberania e a retirada militar estrangeira. A próxima etapa passará pela implementação dos memorandos e pela continuidade das negociações sobre o controlo das milícias, num contexto em que o Iraque depende do gás iraniano para as suas centrais elétricas e procura, simultaneamente, atrair investimento ocidental.
| Imprensa iraniana e afins | +0.80 | aligned |
|---|---|---|
| Imprensa atlântica / anglosfera | −0.10 | neutral |
| Imprensa árabe Levante-Magrebe | 0.00 | neutral |
| Imprensa do Golfo árabe | −0.50 | critical |
O Irã e o Iraque forjam juntos uma nova parceria estratégica, enraizada na história compartilhada e na segurança mútua. A visita do primeiro-ministro iraquiano confirma que nenhum poder externo pode perturbar as relações fraternais entre Teerã e Bagdá.
A narrativa apresenta a visita como uma evolução natural das relações bilaterais, ignorando o contexto dos EUA e enfatizando a inevitabilidade da cooperação. A invocação repetida de laços históricos e religiosos torna a parceria orgânica e inatacável.
O bloco iraniano omite o fato de que a visita de al-Zaydi a Teerã ocorreu imediatamente após uma reunião com Trump e a assinatura de acordos econômicos com os EUA, que é o foco central de outros blocos. Também omite qualquer menção ao ato de equilíbrio do Iraque ou à possibilidade de o Iraque estar mediando entre o Irã e os EUA.
O Iraque anda na corda bamba entre Washington e Teerã, e a diplomacia de vaivém de al-Zaydi pode ser uma tentativa de desescalada, mas o resultado permanece incerto.
A narrativa usa a sequência de viagens (Washington depois Teerã) para criar uma história de mediação, implicando que o Iraque é um intermediário. Baseia-se em especulações e perguntas abertas, em vez de fatos confirmados.
O bloco atlântico omite os acordos econômicos concretos assinados entre o Irã e o Iraque, concentrando-se em vez disso nas implicações geopolíticas. Também omite a negação iraniana de qualquer papel de mediação.
O Iraque navega em uma paisagem regional complexa, usando sua posição única para engajar tanto Washington quanto Teerã, mas o sucesso desse ato de equilíbrio depende das ações de ambos os lados.
A narrativa apresenta a visita como um cálculo racional do interesse nacional, usando a linguagem de 'equilíbrio' e 'estratégia' para tornar a posição iraquiana pragmática e necessária. Evita tomar partido.
O bloco árabe Levante-Magrebe omite os detalhes econômicos específicos dos acordos Irã-Iraque e as fortes garantias de segurança dadas pelo Iraque ao Irã. Também omite a rejeição iraniana da mediação.
O Iraque joga um jogo perigoso; seus compromissos com ambos os lados são contraditórios, e a região observa com suspeita.
A narrativa usa um tom de ceticismo e acusação, questionando os motivos do Iraque e destacando a dificuldade de sua posição. Ela enquadra a visita como um possível fracasso ou um sinal de fraqueza.
O bloco do Golfo Árabe omite os resultados positivos da visita, como os acordos econômicos e as garantias mútuas de segurança. Também omite a declaração explícita do primeiro-ministro iraquiano de que nenhuma parte do Iraque será usada para ameaçar o Irã.
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