
Hormonas sob escrutínio: da endometriose ao risco de tumores cerebrais
Investigação identifica assinatura androgénica na endometriose e associa contracetivos progestagénicos a meningiomas, enquanto especialistas reforçam a vigilância hormonal ao longo da vida.
Uma equipa da Universidade de Edimburgo analisou amostras de sangue de 159 mulheres com endometriose confirmada e 57 sem a condição e identificou uma impressão digital hormonal distinta, publicada no European Journal of Endocrinology. As doentes apresentaram níveis elevados de um androgénio 11-oxigenado, a 11-cetotestosterona, e o perfil permitiu identificar corretamente mais de 95% dos casos. A descoberta desafia a visão tradicional de uma doença exclusivamente estrogénio-dependente e abre caminho a um eventual teste sanguíneo não invasivo, numa patologia cujo diagnóstico no Reino Unido demora, em média, nove anos e exige confirmação cirúrgica.
Um estudo dinamarquês publicado no JAMA, que acompanhou quase três milhões de mulheres entre 2000 e 2024, concluiu que a utilização de contracetivos apenas com progestagénio está associada a um risco acrescido de meningioma, um tumor cerebral geralmente benigno. O risco mais elevado foi observado com o injetável medroxiprogesterona (quatro vezes superior ao da população não utilizadora), enquanto os dispositivos intrauterinos com levonorgestrel em baixa dose registaram a menor subida. O risco absoluto permanece raro — cerca de um em cada dez mil — e, tanto em Portugal como no Brasil, especialistas sublinham que os benefícios na prevenção da gravidez e no tratamento de patologias como a endometriose superam o risco, mas defendem uma comunicação clara às utentes.
Estes dados inserem-se num momento de reavaliação mais ampla da saúde hormonal ao longo da vida feminina. O médico Joaquim Menezes, especialista em longevidade em São Paulo, alerta que a perimenopausa pode começar até uma década antes da menopausa, com sintomas como insónia, nevoeiro mental e ganho de peso frequentemente atribuídos ao stress. A menopausa, por sua vez, vai além do fim da menstruação, afetando o metabolismo, o sono e a autoestima. As doenças autoimunes, que atingem as mulheres de forma desproporcional, também estão ligadas a fatores hormonais e genéticos. Em paralelo, o American College of Sports Medicine reiterou que cargas moderadas são eficazes para ganho de força e saúde óssea, e que a capacidade de executar um dead hang funciona como indicador simples de longevidade. As recomendações do CDC e da American Heart Association para iniciar o rastreio do colesterol aos 19–20 anos reforçam a necessidade de monitorização precoce.
Nos países lusófonos, a possível transformação no diagnóstico da endometriose é recebida com expectativa. No Brasil, onde a doença atinge cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva, as esperas para diagnóstico também se prolongam por anos. A equipa de Edimburgo procura parceiros industriais para desenvolver o teste sanguíneo, e ensaios de validação em maior escala são o próximo passo crítico. Quanto ao estudo dinamarquês, as agências reguladoras europeias deverão rever os dados, e as autoridades de saúde em Portugal e no Brasil poderão atualizar a informação aos doentes. O marco a acompanhar é o arranque dos ensaios clínicos alargados para o teste da endometriose e a eventual revisão das fichas técnicas dos contracetivos progestagénicos.
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