
Gastos eleitorais fora do arcabouço levam mercado a precificar juros acima de 14% até 2036
A liberação de quase R$ 200 bilhões em benefícios, com 60% fora da contabilidade fiscal, elevou as projeções da Selic para patamares persistentemente altos, abalando a confiança no marco fiscal.
O governo brasileiro concedeu ao menos R$ 198,9 bilhões em benefícios diretos a eleitores e empresas ao longo de 2026, dos quais R$ 118,4 bilhões foram estruturados como operações financeiras ou extraorçamentárias que não afetam o teto de gastos nem o resultado primário. O efeito imediato dessa expansão capturou-se na curva de juros futuros negociada na B3: o mercado passou a precificar uma taxa Selic acima de 14% ao ano por todo o horizonte de dez anos, configuração que não se observava desde o governo Dilma Rousseff.
A composição desse gasto, detalhada em estudo do economista Marcos Mendes para a XP Investimentos, revela que cerca de 60% dos valores anunciados escapam à contabilidade do arcabouço fiscal. Programas como a ampliação do Minha Casa Minha Vida e o Desenrola utilizam fundos extraorçamentários ou despesas financeiras que, embora não comprometam formalmente a meta de resultado primário, elevam a dívida pública. Na perspetiva de Brasília, essa ‘contorção fiscal’ corrói a credibilidade do marco de gastos, justamente quando a composição da despesa pública já é considerada desfavorável, com baixíssimo investimento e um déficit nominal pressionado por juros reais de 8% a 9%.
O boletim Focus refletiu a deterioração das expectativas: a projeção para o IPCA de 2026 subiu a 5,33% e a Selic de fim de ano a 14%. A comunicação recente do Copom, considerada confusa por analistas, ampliou o ruído, e a ata a ser divulgada é aguardada como próximo sinalizador. O estudo da XP conclui que a política fiscal foi colocada a serviço do projeto de reeleição presidencial, em prejuízo da estabilidade de médio e longo prazo. Empresas, que baseiam decisões de investimento nas taxas futuras, enfrentam um cenário de custo de capital persistentemente elevado.
Enquanto o Brasil enfrenta riscos inflacionários de origem fiscal doméstica, gestores internacionais consultados pelo Bank of America apontam a inflação global como o principal risco, com a possibilidade de uma terceira vaga vinda dos investimentos massivos em inteligência artificial e de estrangulamentos de oferta em infraestrutura, o que tornaria a desinflação mais lenta do que o previsto. Em contraste, a Índia viu a sua perspetiva de crescimento melhorar após o acordo de paz entre EUA e Irão, que derrubou o Brent para abaixo de US$ 80, levando o banco central indiano a projetar uma expansão superior a 7% e riscos descendentes para a inflação. Para o Brasil, o próximo marco factual é a divulgação da ata do Copom, que poderá esclarecer se a autoridade monetária vislumbra algum espaço para distensão em meio à escalada dos gastos eleitorais.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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O 'pacote de bondades' do governo brasileiro, de quase R$ 190 bilhões em gastos eleitorais em grande parte fora das regras fiscais, destruiu a confiança do mercado. Analistas alertam que essa irresponsabilidade fiscal está empurrando as expectativas de juros para acima de 14% e tornando a dívida pública insustentável. A pesquisa Focus do Banco Central confirma a alta das projeções de inflação e da Selic, sinalizando profunda preocupação com os rumos da economia do país.
O economista-chefe do BCE alerta que a inflação pode permanecer acima da meta de 2% por um período prolongado. Isso reflete ansiedades inflacionárias globais mais amplas, enquanto os bancos centrais lutam contra pressões persistentes nos preços. A declaração ressalta o equilíbrio delicado entre apoiar o crescimento e conter a inflação nas principais economias.
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