
FSB detém em Khabarovsk primeiro russo acusado de espionagem para a Nova Zelândia
Detenção insere-se numa vaga de processos por traição que já condenou mais de 1100 pessoas desde a invasão da Ucrânia, enquanto Moscovo alarga o foco contrarrespionagem à região Ásia-Pacífico.
O Serviço Federal de Segurança (FSB) da Rússia anunciou a detenção de um homem de 55 anos em Khabarovsk, no Extremo Oriente russo, acusado de transmitir informações à inteligência neozelandesa. É o primeiro caso conhecido em que um cidadão russo é formalmente acusado de colaborar com os serviços secretos da Nova Zelândia, membro da aliança de partilha de informações «Five Eyes», que integra ainda EUA, Reino Unido, Canadá e Austrália. O suspeito, cujo nome não foi revelado, foi colocado em prisão preventiva por um tribunal local, sob a acusação de traição (artigo 275.º do Código Penal russo), punível com prisão perpétua.
Segundo o comunicado do FSB, o detido terá contactado por iniciativa própria a agência de segurança e inteligência neozelandesa (NZSIS) e, «por motivos mercenários», utilizado correio eletrónico e aplicações de mensagens estrangeiras para fornecer dados que «podem ser usados contra a segurança da Federação Russa». A mesma fonte afirma que a inteligência da Nova Zelândia procurava obter informações sobre a cooperação técnico-militar da Rússia com países da região Ásia-Pacífico. Imagens divulgadas pela imprensa estatal russa mostram agentes encapuzados a imobilizar o suspeito na rua e, durante uma busca domiciliária, exibem maços de dólares norte-americanos e modelos de equipamento militar ocidental e japonês. A embaixada da Nova Zelândia em Moscovo, contactada pelo jornal Moscow Times — classificado como «indesejável» pelas autoridades russas —, não se pronunciou até ao momento.
A detenção ocorre num contexto de multiplicação de processos por traição e espionagem na Rússia. De acordo com o projeto de direitos humanos «Primeiro Departamento», mais de 1100 pessoas foram condenadas ao abrigo destes artigos desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, das quais pelo menos 350 são cidadãos ucranianos. Só no primeiro trimestre de 2026, os tribunais russos emitiram 107 sentenças, a um ritmo médio de duas por dia útil. Na perspetiva de analistas ocidentais, a referência inédita à Nova Zelândia sinaliza um alargamento do foco contrarrespionagem de Moscovo para além do teatro ucraniano, abrangendo agora a região Ásia-Pacífico, onde a Rússia procura reforçar laços militares e contornar sanções.
Em paralelo, o tribunal militar do Distrito Sul condenou um residente de Novorossiysk a 22 anos de prisão por colaborar com a inteligência militar ucraniana e participar numa organização terrorista. O jovem, nascido em 1998, terá fotografado instalações militares na baía de Novorossiysk e enviado o material para o GUR ucraniano, além de publicar comentários em grupos do Telegram que as autoridades classificaram como apologia do terrorismo. Observadores em Brasília e Lisboa notam que a intensificação dos processos por traição, frequentemente conduzidos em segredo de justiça e com penas severas, reflete uma estratégia de Moscovo para criminalizar contactos com serviços de inteligência estrangeiros, num momento em que as relações com o Ocidente permanecem sob tensão máxima. O caso de Khabarovsk encontra-se em fase de investigação, sem data marcada para julgamento, e não foi divulgada qualquer reação oficial do governo neozelandês.
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