
Prevenção assume papel central no combate à demência e às doenças crónicas
Diretrizes atualizadas da OMS indicam que 45% dos casos de demência podem ser prevenidos ou adiados, enquanto estudos pré‑clínicos e observacionais abrem novas frentes de intervenção.
A Organização Mundial da Saúde publicou, a 15 de julho, a nova edição das suas diretrizes para redução do risco de declínio cognitivo e demência. O documento, que substitui a versão de 2019, sistematiza a evidência mais recente e conclui que até 45% do risco de desenvolver a doença pode ser prevenido ou retardado através do controlo de fatores modificáveis. Entre as novidades, a OMS incluiu a redução da exposição à poluição do ar e o tratamento de problemas de visão não corrigidos, a par das recomendações já consolidadas: cessação tabágica, limitação do consumo de álcool, prática regular de atividade física, alimentação saudável e controlo da hipertensão, diabetes e colesterol. A organização sublinha que a prevenção deve começar antes do aparecimento dos sintomas e que suplementos vitamínicos não são recomendados para este fim.
Em paralelo, uma via terapêutica diferente ganha corpo na investigação fundamental. Cientistas do Instituto de Neurociências de Alicante (CSIC‑Universidade Miguel Hernández) e da École Polytechnique Fédérale de Lausanne publicaram na revista Cell Death & Disease um estudo pré‑clínico em modelos animais da doença de Alzheimer. A equipa desenvolveu uma molécula experimental, designada OLE, capaz de reprogramar a microglia — as células imunitárias residentes do cérebro — e devolver‑lhe funções protetoras. Nos animais tratados, observou‑se redução do tamanho e da toxicidade das placas de beta‑amiloide, diminuição da inflamação cerebral e melhoria do desempenho em testes de memória. Os autores advertem que são necessários mais estudos antes de qualquer ensaio clínico em humanos, mas consideram que a abordagem de restaurar a microglia, em vez de atacar diretamente as proteínas patológicas, representa uma direção promissora.
A ênfase na prevenção é reforçada por estudos observacionais de larga escala. Uma investigação publicada no JAMA Neurology acompanhou 10.775 participantes durante uma década e verificou que um consumo diário de alimentos ultraprocessados correspondente a 28% ou mais das calorias ingeridas estava associado a um risco acrescido de demência. Paralelamente, resultados preliminares apresentados num congresso científico sugerem que falar várias línguas está associado a um cérebro mais jovem: o bilinguismo foi relacionado com um atraso de seis anos no envelhecimento cerebral, e o domínio de quatro línguas com um atraso de até 13 anos. Contudo, os próprios investigadores alertam para o problema da causalidade inversa — pessoas com maior reserva cognitiva podem ter mais facilidade em tornar‑se poliglotas — e notam que, entre migrantes, o multilinguismo nem sempre se traduz em menor risco, provavelmente devido a fatores como isolamento social e desigualdades no acesso à saúde.
A atenção à saúde ao longo da vida extravasa o campo das demências. Dados do National Heart, Lung, and Blood Institute dos Estados Unidos revelam um aumento significativo da obesidade (de 32,7% para 40,9%) e da diabetes (de 3% para 4,1%) em adultos dos 20 aos 44 anos entre 2009 e 2020, impulsionando o risco cardiovascular precoce. Na adolescência, a privação de sono emerge como fator de risco para a obesidade, a par da alimentação e do tempo de ecrã. Em Portugal e no Brasil, onde o envelhecimento populacional avança, observadores notam que a integração destas evidências nos cuidados primários será determinante. O Sistema Único de Saúde brasileiro já oferece diagnóstico e tratamento multidisciplinar para demências, mas o desafio reside em transformar as diretrizes preventivas em prática clínica acessível.
O próximo marco a acompanhar será a eventual transição da molécula OLE para ensaios clínicos de fase I, enquanto a OMS insta os Estados‑membros a reforçarem a deteção precoce dos fatores de risco e a educação para a saúde. Com um custo global da demência estimado em 1,3 biliões de dólares anuais, a pressão para converter conhecimento científico em políticas públicas nunca foi tão elevada.
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