
Custos da IA disparam e forçam demissões, enquanto mercados sobem com a promessa tecnológica
O consumo de tokens e a infraestrutura de inteligência artificial geram despesas inesperadas para empresas como Uber e Microsoft, que cortam pessoal mesmo com os índices acionários em alta.
O segundo trimestre de 2026 expôs uma tensão central na economia da inteligência artificial: enquanto os fundos de ações dos EUA registaram o melhor retorno trimestral desde 2020, com ganho médio de 14,8% impulsionado por apostas diretas e indiretas em IA, grandes empresas começaram a contabilizar os custos operacionais da tecnologia em escala. A Uber revelou que o orçamento anual para ferramentas de IA se esgotou em apenas quatro meses, depois de 95% dos seus engenheiros adotarem assistentes de código. A Microsoft, por sua vez, eliminou 4.800 postos de trabalho — cerca de 2,1% da força global — e a diretora de recursos humanos afirmou que as funções não estavam a ser substituídas por IA, mas reconheceu que a tecnologia está a alterar a forma como o trabalho é executado.
O mecanismo que explica o descompasso está na lógica de faturação dos modelos de linguagem. Ao contrário do software tradicional, cobrado por licença ou utilizador, os grandes modelos generativos são tarifados por volume de processamento — cada palavra de entrada e saída consome tokens. Quando milhares de funcionários utilizam essas ferramentas diariamente, a fatura multiplica-se. A Uber constatou que cerca de 70% do código que chegava aos repositórios já tinha participação de IA, mas a empresa ainda não conseguiu estabelecer uma relação clara entre o aumento do consumo e a entrega de novas funcionalidades aos utilizadores. Em paralelo, a procura por energia para centros de dados beneficia fabricantes de turbinas como a Caterpillar e até petrolíferas como a ExxonMobil, num efeito de arrasto que infla cotações muito além do setor tecnológico.
A resposta das grandes plataformas tem sido dupla: cortar pessoal para financiar a infraestrutura e, ao mesmo tempo, enviar engenheiros para dentro das empresas clientes. A Microsoft reservou 2,5 mil milhões de dólares para criar uma companhia de implantação com mais de 6.000 especialistas; a OpenAI e a Amazon fizeram movimentos semelhantes. Na perspetiva de analistas em Lisboa, este modelo de “engenheiros destacados” sinaliza que o gargalo já não está na qualidade dos modelos, mas na capacidade de as organizações redesenharem processos, integrarem dados fragmentados e gerirem a mudança cultural. A consultoria repetitiva perde espaço, mas cresce a procura por profissionais capazes de combinar critério empresarial e conhecimento tecnológico.
O Fundo Monetário Internacional, no seu World Economic Outlook de 8 de julho, projetou um crescimento global de 3% em 2026 e 3,4% em 2027, abaixo da média de 3,5% observada em 2024-25, e alertou que os benefícios da IA tendem a concentrar-se em economias ligadas às cadeias de fornecimento de alta tecnologia. Observadores em São Paulo notam que a euforia acionária pode ocultar uma bolha de investimento real, com riscos de instabilidade para países emergentes de língua portuguesa que não participam diretamente dessa cadeia. A próxima atualização das projeções do FMI, prevista para outubro, deverá trazer novas estimativas sobre o impacto diferenciado da IA no crescimento das várias regiões.
| Imprensa latino-americana | −0.30 | critical |
|---|---|---|
| Imprensa indiana e sul-asiática | 0.00 | neutral |
| Imprensa chinesa | −0.60 | critical |
O investimento em IA é uma faca de dois gumes: impulsiona os mercados, mas também acarreta custos ocultos que podem superar os benefícios.
Ao justapor ganhos imediatos do mercado com custos operacionais de longo prazo, a narrativa cria um conto de cautela que insta os investidores a pesar ambos os lados.
O impacto direto no emprego, como demissões e a pressão sobre jovens trabalhadores, não é abordado, nem a perspectiva de desigualdade global.
As demissões são um ajuste comercial de rotina, não uma consequência direta da IA, embora a IA esteja de fato transformando os processos de trabalho.
Ao negar explicitamente que a IA causou as demissões enquanto reconhece simultaneamente o impacto da IA no trabalho, a narrativa neutraliza a culpa na IA e enquadra as demissões como uma decisão operacional separada.
Os riscos de mercado mais amplos do investimento em IA e o paradoxo de custos não são mencionados, nem a desigualdade estrutural destacada por outras análises.
O frenesi de investimento em IA é uma bolha perigosa que exacerbará a desigualdade global e a instabilidade econômica, beneficiando apenas alguns.
Ao invocar relatórios do FMI e paralelos históricos, a narrativa enquadra o investimento em IA como um risco sistêmico em vez de um avanço tecnológico, usando fontes autorizadas para dar credibilidade ao aviso.
O caso específico das demissões da Microsoft e o paradoxo de custos operacionais não são abordados, concentrando-se em vez disso nas consequências macroeconômicas.
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