
Confronto mortal em Tell leva Israel a preparar operação militar de larga escala na Cisjordânia
Após a morte de quatro palestinos e dois israelitas num tiroteio perto de Nablus, o governo de Netanyahu anuncia reforço massivo de tropas, legalização acelerada de colonatos e severas medidas repressivas contra aldeias palestinas.
A madrugada de 24 de julho na aldeia de Tell, sudoeste de Nablus, resultou em seis mortos — quatro palestinos da mesma família e dois israelitas, um major do exército e um colono armado — e precipitou uma das mais vastas operações militares israelitas na Cisjordânia ocupada nos últimos meses. As Forças de Defesa de Israel (IDF) impuseram o encerramento total de Nablus, decretaram recolher obrigatório em Tell e na vizinha Burin, montaram bloqueios de estradas e anunciaram o cancelamento de licenças aos soldados na região, enquanto o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu ordenava a demolição das casas de suspeitos e a aceleração da legalização de colonatos ilegais à luz do direito internacional.
As versões do sucedido são radicalmente opostas. De acordo com autarcas palestinos e dirigentes locais do Fatah, na manhã de sexta-feira um grupo de 25 a 30 colonos armados, vindos do colonato de Havat Gilad, entrou em Tell e tentou arrombar duas casas; os habitantes saíram em defesa das habitações, momento em que os colonos e, pouco depois, soldados israelitas abriram fogo. O presidente da câmara de Tell, Walid Zidan, descreveu o episódio como “um massacre cometido pelos colonos em coordenação com as forças de ocupação”. Imagens de vídeo que circularam nas redes mostram civis armados e soldados a apontar armas a palestinianos reunidos num campo; num momento, um dos palestinianos desarma um civil israelita, seguindo-se uma rajada de tiros. O Ministério da Saúde palestiniano confirmou que as quatro vítimas — dois irmãos e dois primos — foram alvejadas por disparos israelitas.
Já o Exército israelita sustenta que um grupo de civis israelitas fazia uma caminhada não autorizada na Área A da Cisjordânia — território sob controlo civil e de segurança da Autoridade Palestiniana, onde a entrada de israelitas é oficialmente proibida — quando foi atacado por dezenas de palestinianos junto à mesquita local. Segundo as IDF, um palestiniano tomou a arma de um segurança civil do colonato e disparou contra o grupo, matando Benayahu Mellet, 32 anos, membro da equipa de resposta de emergência de Havat Gilad, e o major Yuval Ezra, 27 anos. Netanyahu qualificou o incidente de “grave ataque terrorista” e prometeu agir “com toda a força”. O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, foi mais longe, apelando à evacuação de aldeias palestinas vizinhas e ao seu “arrasamento”.
O choque insere-se numa escalada de violência na Cisjordânia que, segundo dados das Nações Unidas, já fez 87 mortos palestinianos desde o início do ano, 21 deles por disparos de colonos. Nas horas seguintes ao episódio de Tell, colonos israelitas atacaram várias outras localidades — Far’ata, Jit, Imatin, Iraq Burin — incendiando casas, viaturas e olivais. Observadores internacionais, incluindo diplomatas em Lisboa e Brasília, notam que a aceleração da expansão dos colonatos e a retórica governamental israelita, a poucos meses de eleições, tornam cada vez mais remota a viabilização de um Estado palestiniano. Em Ramallah, a Autoridade Palestiniana pediu proteção internacional e denunciou a invasão de um hospital de Nablus por tropas israelitas, que detiveram dois feridos.
O Executivo israelita deu aval a cinco medidas imediatas: demolição da casa do alegado atirador, ampliação das operações de contraterrorismo em aldeias classificadas como “ninhos de terroristas”, confisco de armas e revogação de autorizações de trabalho para palestinianos, reforço de tropas e legalização de postos avançados de colonização. As IDF transferiram forças da frente de Gaza e do Líbano para a Cisjordânia, sinalizando que a operação em curso poderá prolongar-se. Não há no horizonte, porém, qualquer iniciativa diplomática que trave o ciclo de retaliações, e o dossiê deverá regressar ao Conselho de Segurança da ONU apenas num quadro de tensão ainda mais agravada.
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