
Cabo Verde recebe seleção como heróis nacionais após campanha invicta nos 90 minutos
A equipa dos Tubarões Azuis desembarcou na Praia no Dia da Independência e foi ovacionada por milhares, depois de levar a Argentina ao prolongamento nos oitavos de final do Mundial 2026.
O aeroporto internacional Nelson Mandela, na Praia, transformou-se num mar azul na manhã de domingo. Milhares de cabo-verdianos, muitos com bandeiras e camisolas da seleção, entoaram cânticos e batuques para receber os jogadores que regressavam dos Estados Unidos. A comoção foi ampliada pela coincidência com o 51.º aniversário da independência do país, proclamada a 5 de julho de 1975. Operadores de pista fizeram vénias à comitiva, gesto que a Federação Cabo-verdiana de Futebol difundiu nas redes sociais e que, na perspetiva de observadores em Lisboa, sintetiza o lugar que o futebol passou a ocupar na construção da identidade nacional do arquipélago.
A receção apoteótica coroou uma campanha em que Cabo Verde, na sua estreia em Mundiais, se tornou a mais pequena nação de sempre a ultrapassar a fase de grupos. A equipa orientada por Pedro Leitão Brito, o Bubista, não perdeu qualquer jogo no tempo regulamentar: empatou 0-0 com a Espanha, 2-2 com o Uruguai e 0-0 com a Arábia Saudita, garantindo o apuramento como um dos melhores terceiros. Nos oitavos de final, em Miami, esteve a dez minutos de levar a Argentina, campeã em título, aos penáltis. Depois de um 1-1 nos 90 minutos, um golo de Sidny Lopes Cabral restabeleceu o 2-2 no prolongamento, mas um desvio infeliz de Diney Borges num cabeceamento de Cristian Romero fixou o 3-2 final.
O guarda-redes Vozinha, de 40 anos, emergiu como a figura mais mediática do torneio. As suas defesas frente a Espanha e Argentina valeram-lhe um salto de 200 mil para quase 26 milhões de seguidores no Instagram, fenómeno que a imprensa brasileira apelidou de “Vozinhamania”. Na Praia, uma faixa com a bandeira do Brasil foi estendida por uma apoiante mineira, casada com um cabo-verdiano, que recordou o estágio de Bubista e Vozinha na Toca da Raposa, centro de treinos do Cruzeiro. O próprio treinador rejeitou a ideia de acaso: “Mostrámos que a qualificação não foi sorte. Deixámos os Estados Unidos de cabeça erguida”, afirmou.
O fim de semana desportivo não se esgotou no futebol. No mesmo domingo, a seleção masculina de basquetebol garantiu a passagem à segunda ronda de qualificação para o Mundial de 2027, ao vencer a Líbia nos Camarões. O treinador Emanuel Trovoada saudou o momento “histórico” e sublinhou a festa que o futebol já proporcionava. A equipa de basquetebol, que se estreou em Mundiais em 2023, retomará a qualificação no final de agosto, enquanto os Tubarões Azuis deixam um legado que, na leitura de analistas africanos, reposiciona o arquipélago no mapa do desporto global.
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