
Buffett congela doação à Fundação Gates e aguarda apuração de laços com Epstein
Pela primeira vez em duas décadas, o investidor interrompeu a transferência anual de ações da Berkshire Hathaway, enquanto a fundação revê contactos com o financista acusado de crimes sexuais.
Warren Buffett não realizou a doação de meio de ano à Fundação Gates, quebrando uma tradição de 20 anos. A transferência, geralmente feita em junho ou julho com milhares de milhões de dólares em ações da Berkshire Hathaway, foi suspensa. Buffett aguarda os resultados de uma investigação independente sobre as ligações históricas da fundação com Jeffrey Epstein, o financista que morreu na prisão em 2019 enquanto aguardava julgamento por tráfico sexual. A decisão marca uma rutura num dos compromissos filantrópicos mais duradouros do mundo.
A fundação contratou o escritório de advocacia WilmerHale para conduzir uma revisão externa, iniciada em março, que examina os contactos passados com Epstein e as atuais políticas de parceria. Em comunicado, a entidade afirmou que um pequeno número de funcionários interagiu com Epstein na tentativa de angariar fundos para saúde global, mas que nenhuma colaboração se concretizou. Buffett e assessores próximos têm mantido contacto direto com a liderança da fundação, incluindo o CEO Mark Suzman, para compreender a extensão dos vínculos. O investidor de 95 anos, que já doou cerca de 48 mil milhões de dólares à instituição desde 2006, indicou que poderá adiar qualquer decisão até à sua carta anual de Ação de Graças, em novembro.
O congelamento ocorre num momento de tensão na relação entre Buffett e Bill Gates. Os dois não se falam desde a divulgação dos ficheiros do Departamento de Justiça dos EUA, que revelaram a proximidade de Gates com Epstein. O cofundador da Microsoft testemunhou à porta fechada no Congresso, pediu desculpas por ter dado credibilidade a Epstein e admitiu casos extraconjugais. A paralisação do financiamento não afeta outras doações de Buffett, mas lança incerteza sobre o fluxo de recursos para programas de saúde e desenvolvimento que já distribuíram 110 mil milhões de dólares globalmente, com impacto significativo em países lusófonos como Moçambique, onde a fundação apoia iniciativas de vacinação e combate à malária.
Enquanto isso, nos Estados Unidos, especialistas em filantropia apontam uma transformação geracional na forma de doar. Katherine Lorenz, líder do grupo Next Gen da Giving Pledge, e Melissa Stevens, do Milken Institute, observam que os herdeiros mais jovens pressionam os pais a distribuir a riqueza mais rapidamente e a privilegiar o investimento de impacto, a advocacia e o combate às causas estruturais dos problemas sociais, em vez das doações tradicionais. MacKenzie Scott é citada como exemplo de filantropia baseada na confiança, com doações sem restrições. Esta tendência, que deverá acelerar com a transferência de 124 biliões de dólares para as gerações X e millennial até 2048, contrasta com a pausa cautelosa de Buffett, sublinhando um setor em redefinição.
O desfecho depende da conclusão da auditoria externa, prevista para o verão americano. O relatório da WilmerHale determinará se a Fundação Gates mantém o acesso a um dos seus maiores benfeitores ou se a rutura se tornará permanente.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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O adiamento da doação de Buffett à Fundação Gates insere-se numa transferência geracional de riqueza mais ampla, em que os herdeiros mais jovens mostram pouca lealdade aos consultores tradicionais e pressionam por uma filantropia orientada para o impacto. A pausa enquanto se aguarda a investigação Epstein reflete uma exigência crescente de responsabilização e transparência.
A pausa de Buffett quebra uma tradição de 20 anos e alinha-se com uma mudança geracional na filantropia, em que os filhos dos bilionários preferem o investimento de impacto e a advocacia às doações tradicionais. A investigação Epstein acrescenta urgência a esta redefinição de prioridades.
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