
Brasil avança em cortes de juros enquanto Austrália e Europa alertam para inflação
Apesar do cessar-fogo entre EUA e Irã, bancos centrais do Brasil, Austrália e zona do euro enfrentam pressões inflacionárias persistentes, com a Selic a caminho de 14,25% e o RBA a ameaçar novas altas.
A chamada “superquarta” de decisões de política monetária expôs a divergência de rumos entre as grandes economias, mas também um denominador comum: a inflação segue como ameaça latente, mesmo após o acordo de paz que reabriu o Estreito de Ormuz. No Brasil, a expectativa majoritária é de que o Comitê de Política Monetária reduza a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano, no terceiro corte consecutivo desde março. Em Washington, a manutenção da taxa de referência norte-americana é dada como praticamente certa. Já em Sydney, o banco central australiano manteve o juro em 4,35%, mas a governadora Michele Bullock advertiu que não hesitará em voltar a subi-lo se a inflação não convergir para a meta de 2% a 3%.
Na perspetiva de Brasília, o alívio monetário é frágil. A inflação oficial projetada pelo boletim Focus ronda os 5,3%, bem acima do teto da meta, e os estímulos fiscais do governo Lula, somados a eventos climáticos extremos, criam o que economistas locais descrevem como uma “tempestade perfeita”. A volatilidade herdada do conflito no Oriente Médio e a desancoragem das expectativas inflacionárias levam parte do mercado a apostar que este pode ser o último corte antes de uma pausa prolongada, configurando um dos ciclos de flexibilização mais curtos da história brasileira.
Em Sydney, a pausa nos aumentos — a primeira este ano, após três altas consecutivas — não foi interpretada como trégua definitiva. Bullock reconheceu o sofrimento das famílias com o crédito mais caro, mas insistiu que a estabilidade de preços é inegociável. O mercado, contudo, considera que a governadora está a blefar: as projeções do próprio RBA indicam que a inflação regressará ao intervalo-alvo sem necessidade de novos apertos, e o cessar-fogo no Médio Oriente, ainda que insuficiente para normalizar os preços do petróleo, reduz os riscos de disrupção da oferta.
Do outro lado do Atlântico, o economista-chefe do Banco Central Europeu, Philip Lane, alertou que a inflação na zona do euro deverá superar os 3% nos próximos meses, ancorada num barril de petróleo que se mantém na casa dos 80 dólares. A presidente Christine Lagarde reforçou que é imperativo domar os preços antes que fujam ao controlo. Observadores em Lisboa notam que este ambiente de juros elevados nas economias avançadas prolonga as pressões cambiais e o custo da dívida para os países africanos de língua portuguesa, cujas importações de energia e alimentos permanecem expostas à rigidez das cotações internacionais. O alívio geopolítico é bem-vindo, mas está longe de afastar os receios de uma inflação persistente à escala global.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
2 grupos editoriais · 1 idiomas
O banco central australiano mantém as taxas, mas ameaça com novas altas, um movimento que os mercados veem como um blefe. O impacto dessas ameaças é desigual: alguns grupos seriam muito mais afetados por um aperto, levantando questões de equidade. A retórica agressiva pode servir mais para gerir expectativas do que para sinalizar ações reais.
Nesta superquarta, espera-se que o Copom corte a Selic em 0,25 ponto, para 14,25%, possivelmente o último corte antes de uma pausa. O acordo de paz entre EUA e Irã consolidou as expectativas de afrouxamento, mas os riscos fiscais e a inflação desancorada tornam este um dos ciclos de queda mais curtos da história.
Artigos relacionados
Fed mantém juros na estreia de Warsh, mas tom hawkish pode surpreender mercados
6 idiomas · 19 veículos
LegislaçãoEduardo Bolsonaro condenado a quatro anos de prisão por lobby junto aos EUA
7 idiomas · 15 veículos
Defense & SecurityIsrael prossegue ataques no Líbano e desafia acordo EUA-Irão
6 idiomas · 16 veículos