
Cimeira da NATO em Ancara expõe fissuras transatlânticas e impulso europeu por autonomia de defesa
Pressão de Washington por gastos de 5% do PIB e crise diplomática com Itália coincidem com proposta canadiana de banco de defesa e esforço europeu para preencher lacunas deixadas pelos EUA.
A cimeira da NATO, marcada para 7 e 8 de julho em Ancara, sob presidência turca, decorre num momento de tensão transatlântica sem precedentes recentes. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, classificou-a como “provavelmente a mais importante da história da organização”. Na agenda estão a exigência da Casa Branca de que todos os aliados elevem a despesa militar para 5% do PIB, a redução da presença militar dos EUA na Europa e a guerra com o Irão, que expôs divergências profundas, em particular com a Itália. Roma recusou autorizar o reabastecimento de aeronaves norte-americanas na Sicília durante os bombardeamentos, o que levou o presidente Donald Trump a acusar publicamente a primeira-ministra Giorgia Meloni de falta de lealdade e a afirmar que esta lhe teria “implorado” por uma fotografia — versão que o governo italiano classificou como “completamente inventada”.
Na perspetiva de Washington, a aliança deve funcionar como “uma via de mão dupla”, segundo o secretário da Defesa Pete Hegseth, que condicionou a contribuição financeira americana ao cumprimento das metas de investimento militar. Trump reiterou na rede Truth Social que os EUA gastam 999 mil milhões de dólares, contra 48,8 mil milhões de Itália, e que a proteção concedida não traz vantagens. Em paralelo, o Pentágono conduz uma revisão de seis meses com o objetivo de transferir para os europeus “a responsabilidade principal pela defesa do continente”, incluindo a retirada de um grupo de porta-aviões e de todos os submarinos designados à aliança. O general Alexus Grynkewich confirmou que os aliados europeus já estão a suprir a maioria das lacunas deixadas por essas reduções, num movimento descrito como necessário para reduzir uma codependência “não saudável”.
Do lado europeu, a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, afirmou em entrevista ao jornal La Stampa que “a Europa deve assumir uma maior responsabilidade pela sua própria segurança”, apontando a Itália como “pilar da base industrial da defesa comum”. O ministro da Defesa italiano, Guido Crosetto, abriu a porta a uma nova missão de peace enforcement no Líbano, sob mandato da ONU e com consentimento de Beirute, para substituir a UNIFIL e contribuir para o desarmamento do Hezbollah, alinhando-se com os entendimentos alcançados entre Washington, Beirute e Jerusalém. O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, tenta conter as fraturas, sublinhando que os aliados disponibilizaram bases para as operações no Irão e que os investimentos europeus na indústria militar geram elevado número de empregos nos EUA.
Paralelamente, o Canadá procura anunciar em Ancara a criação do Defence, Security and Resilience Bank (DSRB), um banco multilateral de defesa que reuniria cerca de dez membros fundadores, na maioria europeus, e mobilizaria até 100 mil milhões de libras (133 mil milhões de dólares) em financiamento de baixo custo para projetos de defesa e resiliência. A iniciativa, promovida pelo primeiro-ministro Mark Carney no quadro de uma aliança de “potências médias”, é apresentada como resposta à fragmentação da ordem liderada pelos EUA. A negociadora canadiana Isabelle Hudon indicou que a Coreia do Sul poderá aderir mais tarde, mas nenhum outro país do G7 está próximo de assinar. A credibilidade do banco dependerá da capacidade de atrair membros com solidez financeira suficiente para obter uma notação de crédito triplo A. A cimeira deverá ainda abordar o apoio à Ucrânia, a postura no flanco leste face à Rússia e o memorando de entendimento entre Washington e Teerão, que não eliminou as tensões no Estreito de Ormuz. O encontro entre Trump e Meloni será um dos momentos mais observados, enquanto os 32 chefes de Estado e de governo procuram evitar uma implosão da aliança.
| Imprensa europeia continental | −0.30 | critical |
|---|---|---|
| Imprensa russa e CEI | −0.70 | critical |
| Imprensa atlântica / anglosfera | +0.20 | neutral |
Europe speaks as a unified actor: the summit is a test for strategic autonomy, threatened by Washington's unilateral demands.
The account turns internal divisions into a narrative of collective resistance, presenting the European stance as natural and inevitable.
No space is given to Russian security arguments, nor to internal European criticism of higher military spending.
Russia denounces the summit as aggression disguised as defense, and warns that every NATO move will have a proportionate response.
It equates NATO expansion to an attack, thereby legitimizing a symmetrical military response and presenting Russia as a victim forced to defend itself.
The context of Ukraine's security demands and the role of the Russian invasion as the cause of tension are omitted.
The alliance presents itself as a necessary bulwark: differences are normal, but the common threat requires cohesion and pragmatism.
Threats (Russia, terrorism) are hierarchized to downplay internal divisions and justify continued NATO commitment.
European criticism of US hegemony and the consequences of a potential American disengagement are not explored.
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