
Apelos à unidade nacional sob escrutínio em democracias de quatro continentes
De Teerão a Bogotá, passando por Estocolmo e Abuja, analistas questionam a retórica da união forçada e reivindicam a divisão como valor democrático, ao mesmo tempo que cobram responsabilidade dos cidadãos comuns.
Um protesto de parlamentares iranianos dentro do próprio Parlamento gerou um alerta imediato de setores políticos do país: qualquer concentração, mesmo com intenções legítimas, pode ser instrumentalizada pelo inimigo externo. O deputado Jafari-Azar, citado pela imprensa iraniana, advertiu que a única mobilização eficaz e segura é a presença popular em cerimónias nacionais e religiosas, e que a prioridade dos legisladores deve ser o regresso às funções de fiscalização e produção de leis. O episódio ilustra uma tensão que, em diferentes latitudes, opõe a defesa da coesão interna à gestão do dissenso político.
Na América Latina, a perspetiva predominante entre analistas colombianos inverte a lógica do apelo unitário. Comentários publicados em Bogotá sustentam que a divisão, e não a união, é o valor supremo que as democracias devem proteger, pois só fazem sentido ao amparar o direito ao conflito. A exigência de unidade nacional é descrita como um lugar-comum enganoso que, na prática, dissimula um apelo à subordinação em torno das posições de quem o enuncia. A filósofa Chantal Mouffe é evocada para lembrar que a democracia não elimina o antagonismo, mas transforma inimigos em adversários mediante o respeito às regras do jogo e o reconhecimento do direito de todos os setores políticos participarem.
No Norte da Europa, observadores suecos acrescentam duas camadas ao debate. Uma corrente, expressa em Kristianstadsbladet, defende que a democracia funciona melhor quando representada por “pessoas comuns e sensatas” de origens diversas, mas alerta que o silêncio dessas maiorias moderadas, intimidada por uma “coro de ódio e idiotice acalorada”, cede a palavra a políticos que parecem vir de outro mundo. Outra voz, em Uppsala, critica o uso de categorias como “imigrante de terceira geração”, que prolongam artificialmente uma distinção entre “nós” e “eles”, e propõe que a linguagem oficial e pública se refira apenas a cidadãos suecos, independentemente da origem, para não reproduzir lógicas de classificação que evocam períodos sombrios da história europeia.
A partir da África Ocidental, a análise nigeriana desloca o foco para a responsabilidade dos cidadãos. Em Abuja, argumenta-se que a prestação de contas não pode ser um exercício de sentido único dirigido apenas ao Estado: muitos dos problemas persistentes do país são sustentados diariamente pelas escolhas, hábitos e comportamentos da população. A degradação ambiental, a indisciplina cívica e a erosão de valores começam nas famílias e nas comunidades antes de se tornarem crises nacionais. Nesta leitura, a construção de uma democracia funcional exige que a conversa sobre desenvolvimento comece dentro de casa, com a pergunta sobre que tipo de cidadãos se está a formar hoje.
O estado do dossiê revela um movimento transnacional de reavaliação dos fundamentos da convivência democrática. No Irão, o impasse em torno do protesto parlamentar mantém aceso o debate sobre os limites da dissidência interna. Na Colômbia, a chegada de um novo governo testará, na prática, se a oposição democrática será tolerada ou se o apelo à união se converterá em perseguição política, como temem setores progressistas. Na Suécia, as eleições legislativas do outono são encaradas como um referendo sobre que tipo de liderança — e que linguagem sobre cidadania — prevalecerá. Em todos os casos, a próxima etapa concreta será a tradução destes discursos em decisões eleitorais e legislativas que definirão o perímetro da pluralidade admitida em cada sociedade.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A democracia funciona melhor quando é representada por uma ampla mistura de pessoas comuns e sensatas, e não por descontentes barulhentos. No entanto, o debate público se tornou mais áspero, com linguagem e políticas cada vez mais duras em relação a pessoas de origem estrangeira, agora apoiadas até por forças tradicionalmente progressistas, levantando preocupação sobre uma tendência excludente.
Em tempos de pressão externa e dificuldades econômicas, a unidade nacional é um imperativo absoluto. Qualquer forma de protesto ou ocupação, mesmo de parlamentares, corre o risco de dar ao inimigo a oportunidade de semear divisão. Apenas as concentrações religiosas e nacionais fortalecem o país, e cada palavra pública deve ser pautada pela responsabilidade e equidade para preservar a coesão social.
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