
Aliança governista mexicana inicia disputa por 17 governos estaduais com regras divergentes e êxodo de legisladores
Morena, PVEM e PT abrem processo interno para 2027, mas nepotismo e ambições individuais ameaçam coesão da coalizão, enquanto o México renova seu sistema partidário.
A coligação que sustenta o governo mexicano deu o pontapé de saída para a sucessão em 17 estados, mas a largada expôs fissuras que vão muito além do calendário eleitoral. Na quarta-feira, as direções de Morena, Partido Verde e Partido do Trabalho anunciaram que, entre 22 e 27 de junho, receberão os registos dos aspirantes às coordenações estaduais de defesa da Quarta Transformação — figura que, na prática, funciona como antecâmara das candidaturas aos governos estaduais de 2027. A convocatória conjunta, porém, não esclarece em que territórios a aliança se repetirá. Em San Luis Potosí, a presidente da Comissão Nacional de Eleições de Morena, Citlalli Hernández, admitiu que a coligação “será noutro momento”, enquanto o Partido Verde reivindica o direito de lançar a senadora Ruth González, esposa do atual governador, ignorando as restrições ao nepotismo que o partido guinda tenta impor.
A indefinição provocou uma debandada de legisladores e autarcas. Só na Comissão Permanente do Congresso foram aprovadas 17 licenças de deputados e senadores, entre eles a senadora Lorenia Valles, que disputará a coordenação em Sonora, e o alcaide de Ciudad Juárez, Cruz Pérez Cuéllar, que busca a candidatura em Chihuahua. A prefeita de Acapulco, Abelina López, também pediu afastamento para concorrer ao governo de Guerrero. Observadores na Cidade do México notam que a pressa em abandonar os cargos revela tanto a atratividade do poder regional como a incerteza sobre as regras: cada partido definirá os seus candidatos segundo os próprios estatutos, e o PVEM já avisou que a figura do nepotismo eleitoral não existe nas suas normas internas.
Esse movimento ocorre num momento de renovação mais ampla do sistema partidário mexicano. Apenas cinco das 91 organizações que manifestaram intenção de se tornar partido nacional conseguiram apresentar a documentação formal ao Instituto Nacional Eleitoral, num modelo rígido que só abre a porta a cada seis anos. Ao mesmo tempo, o Tribunal Eleitoral confirmou a perda de quase 94 mil filiações duplicadas de Morena, um revés que expõe a fragilidade dos registos partidários. Na perspetiva de Brasília, o cenário ecoa as dificuldades de institucionalização das legendas na América Latina, onde coligações frequentemente se desfazem quando os interesses locais se sobrepõem à disciplina nacional. Já em Lisboa, a rigidez do calendário mexicano contrasta com sistemas europeus que permitem a criação de partidos a qualquer momento, mas o desafio da representação feminina é universal: na Indonésia, o Tribunal Constitucional acaba de determinar que os partidos que não cumprirem a quota de 30% de candidatas num distrito serão excluídos da eleição nesse território, uma decisão que expõe a crise de recrutamento e o recurso a esposas e familiares para preencher listas.
A análise comparada sugere que as tensões mexicanas não são um episódio isolado. Na Rússia, o cientista político Alexei Martynov prevê que a próxima Duma poderá albergar seis ou sete partidos, com forças extraparlamentares a ultrapassar a barreira dos 5%, o que indica que também em sistemas semipresidenciais a fragmentação e a renovação das elites estão na ordem do dia. Para a África lusófona, onde partidos dominantes frequentemente gerem alianças assimétricas, o laboratório mexicano oferece lições sobre os riscos de uma hegemonia que depende de sócios cada vez mais autónomos.
O processo que agora começa testará a capacidade da Quarta Transformação de gerir ambições divergentes sem romper a frente que lhe deu a presidência. As coordenações estaduais serão escolhidas por sondagens e negociações internas, mas a ausência de regras uniformes deixa espaço para impugnações e cisões. Se o PVEM e o PT insistirem em candidaturas próprias em estados-chave, a oposição poderá beneficiar da divisão. Ao mesmo tempo, a renovação do sistema partidário, com a eventual entrada de novas legendas, pode alterar o equilíbrio de forças num país onde a porta de acesso ao poder se abre apenas a cada seis anos, mas a porta de saída se ativa a cada três.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A coalizão governante no México mostra fissuras cada vez mais evidentes antes das eleições para 17 governos estaduais em 2027. Os partidos aliados – Morena, PVEM e PT – ainda não definiram as alianças estaduais, enquanto crescem as tensões sobre nepotismo e candidaturas. Vários prefeitos e senadores já pediram licença para entrar na disputa interna, marcando o início de uma longa batalha pelo poder.
A coalizão de esquerda no poder no México passa por turbulências internas que lembram crises de alianças instáveis. Especialistas russos observam com distanciamento a onda de pedidos de licença e disputas sobre nepotismo, vendo nisso um sinal de fraqueza sistêmica. A corrida por 17 governos estaduais pode remodelar os equilíbrios num país já marcado por violência e corrupção.
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