
Abdullah Ibrahim: o jazzista que deu alma à resistência sul-africana morre aos 91 anos
Pianista e compositor exilado pelo apartheid, transformou a dor da diáspora em hinos como “Mannenberg”, deixando um legado que ecoa da Cidade do Cabo a Brasília e Lisboa.
O pianista e compositor Abdullah Ibrahim, figura maior do jazz sul-africano e símbolo da luta contra o apartheid, morreu na segunda-feira, aos 91 anos, na Alemanha, rodeado pela família. A notícia, confirmada pela sua representante, gerou uma vaga de tributos, com o Presidente Cyril Ramaphosa a sublinhar que as suas criações “honraram a África do Sul que moldou o seu empenhamento político e o seu brilhantismo musical”. A despedida acontece poucos meses depois da sua última atuação em solo natal, em março, no Festival Internacional de Jazz da Cidade do Cabo, onde a fragilidade física contrastava com a solenidade de um gigante de silhueta mandeliana.
Nascido Adolph Johannes Brand em 1934, no vibrante e multicultural bairro do District Six, na Cidade do Cabo, Ibrahim começou a compor ao piano aos sete anos. A sua identidade artística forjou-se na efervescência do bebop, primeiro como Dollar Brand, e depois, a partir de 1968, como Abdullah Ibrahim, nome adotado ao converter-se ao Islão. O District Six, que a segregação racial do apartheid arrasaria em 1982, foi o seu cadinho criativo, mas também a antecâmara de um exílio que o levaria a viver entre a Europa e os Estados Unidos durante décadas. Foi nesse trânsito forçado que a sua música ganhou o perfume do desterro e a densidade espiritual que sempre o distinguiram.
A sua obra tornou-se banda sonora da resistência. Em 1959, ainda como Dollar Brand, integrou os Jazz Epistles, grupo que gravou o primeiro álbum de jazz por músicos negros na África do Sul. Descoberto por Duke Ellington, construiu uma carreira com mais de 70 discos, culminando em “Mannenberg” (1974), peça que capturou a resiliência de uma comunidade deslocada à força e se transformou num hino não oficial contra o apartheid. A sua música viajou também para o cinema, em colaborações com a realizadora francesa Claire Denis, para quem compôs as bandas sonoras de “Chocolat” e “No Fear, No Die”.
Observadores na África do Sul notam que Ibrahim nunca deixou de ser uma presença política, mesmo quando a distância geográfica parecia impor silêncio. A sua conversão ao Islão e a profundidade espiritual das suas composições ofereceram uma banda sonora à luta pela dignidade, enquanto o seu regresso pontual aos palcos do Cabo reafirmava uma ligação inquebrável ao território e à memória. Analistas em Lisboa e no Rio de Janeiro sublinham que a sua influência extravasou as fronteiras sul-africanas, inspirando músicos nos países africanos de língua oficial portuguesa e no Brasil, onde o jazz de resistência dialogou com tradições como a bossa nova e o samba engajado.
A morte de Abdullah Ibrahim encerra oito décadas de uma carreira que fez da simplicidade do toque uma arma de afirmação cultural. O seu legado, porém, permanece como um arquivo sonoro da resiliência negra e da capacidade de transformar exílio em criação. Na perspetiva de Brasília, a sua trajetória recorda que a luta contra a segregação racial na África do Sul encontrou eco nas políticas de igualdade racial no Brasil, enquanto, em Lisboa, a sua obra ressoa como um capítulo essencial das narrativas pós-coloniais que unem o Atlântico Sul.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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O pianista de jazz sul-africano Abdullah Ibrahim morreu aos 91 anos. Faleceu pacificamente na Alemanha após uma curta doença, rodeado pela família. Deixa mais de 70 álbuns.
Abdullah Ibrahim, o elegante pianista sul-africano com silhueta à Mandela, morreu na Alemanha aos 91 anos. Símbolo da luta anti-apartheid, sua música carregava o perfume do exílio e tornou-se uma voz de liberdade. Ele se apresentou pela última vez em março no Festival Internacional de Jazz da Cidade do Cabo, sua cidade natal.
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