
A paz que divide: como o acordo EUA-Irã isola Netanyahu e redesenha o xadrez do Médio Oriente
O entendimento entre Washington e Teerão desmonta os pilares da estratégia do primeiro-ministro israelita, que apostou na guerra para se fortalecer e agora enfrenta um dilema de segurança e um aliado impaciente.
O anúncio de que Estados Unidos e Irão avançam para um cessar-fogo surpreendeu o tabuleiro geopolítico e deixou Israel diante de um cenário que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu sempre quis evitar: uma paz negociada por Washington que preserva Teerão como ator incontornável. Netanyahu embarcou na ofensiva conjunta com Donald Trump convencido de que a campanha militar derrubaria o regime dos aiatolás, paralisaria a rede de milícias aliadas e o consagraria, às portas de eleições, como o arquiteto de uma nova ordem regional. Agora, o mesmo Trump que autorizou os bombardeamentos empurra para um acordo que interrompe as hostilidades antes de Israel alcançar os seus objetivos estratégicos, abrindo uma fissura entre os dois líderes que analistas em Brasília classificam como o princípio de um divórcio político de alto risco.
A frustração israelita é tripla e atinge o núcleo da biografia de Netanyahu. Durante décadas, o primeiro-ministro cultivou a imagem de interlocutor privilegiado de Washington, capaz de ditar ritmos ao Congresso e à Casa Branca. O acordo em gestação, porém, foi costurado à sua revelia, expondo uma perda de influência que observadores em Lisboa consideram sintomática do cansaço americano com aventuras militares perpétuas. Ao mesmo tempo, a prioridade absoluta que Netanyahu atribuiu ao confronto com o Irão — transformada em doutrina de segurança nacional — sai enfraquecida, porque Teerão emerge do conflito sem o colapso do seu programa nuclear e com a sua rede de aliados, do Hezbollah aos Houthis, ainda operacional. Por fim, a exigência de que Israel cesse os ataques no Líbano despedaça a imagem de “Mr. Segurança” que o primeiro-ministro tentava reabilitar, deixando-o encurralado entre a pressão americana e a desconfiança de um eleitorado que vê as fronteiras norte ainda sob ameaça.
Do lado americano, a procura de uma saída rápida responde a um cálculo eleitoral e estratégico. Trump, que projetou força ao autorizar a guerra, quer agora capitalizar a paz antes do ciclo de 2026, enquanto o Pentágono alerta para o desgaste de manter duas frentes — a iraniana e a libanesa — sem um ponto final claro. Teerão, por seu turno, aproveita a diplomacia para sair do isolamento sem ter de desmantelar as suas capacidades. A imprensa indonésia, atenta ao impacto nos países muçulmanos, nota que o Irão consegue apresentar-se como vítima de uma agressão que resistiu com sucesso, reforçando a sua narrativa junto de parceiros da África lusófona que observam com interesse a reconfiguração das alianças no Golfo.
Para além do eixo Jerusalém-Washington, o acordo projeta sombras e oportunidades. Em Brasília, a perspetiva de um alívio nas tensões do Médio Oriente é recebida com cautela: a estabilização pode conter os preços do petróleo, mas a normalização de Teerão sem desarmamento nuclear cria incerteza de longo prazo que afeta os cálculos de investimento do pré-sal. Em Lisboa, diplomatas acompanham o processo com a memória das crises migratórias e de segurança que uma região instável costuma exportar para a Europa. Nos corredores da CPLP, o eventual reforço da influência iraniana em Estados frágeis do Índico Ocidental é visto como um fator que pode complicar os equilíbrios em Moçambique e Angola, onde a presença de redes xiitas ainda é residual mas crescente.
Netanyahu vê-se assim diante de uma escolha amarga: aceitar o acordo e comparecer às urnas como o líder que perdeu a guerra que ele próprio declarou existencial, ou desafiá-lo e arriscar um choque frontal com o único aliado capaz de vetar resoluções no Conselho de Segurança. A margem de manobra israelita é estreita, e o relógio político não perdoa. O Médio Oriente que emergirá deste entendimento não será o que Netanyahu sonhou redesenhar, mas sim um onde o Irão permanece de pé, os Estados Unidos se retiram gradualmente e Israel, pela primeira vez em décadas, enfrenta a solidão estratégica que sempre temeu.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Os círculos da direita israelense próximos a Netanyahu estão furiosos, chamando Trump de perdedor e acusando Washington de traição por fechar um acordo de paz com o Irã. Eles veem o acordo como uma traição que deixa Israel exposto e mina a estratégia de guerra do primeiro-ministro às vésperas das eleições.
As tensões entre o presidente Trump e o primeiro-ministro Netanyahu chegaram a um ponto de ruptura, com o acordo de paz EUA-Irã expondo seus objetivos divergentes. Enquanto Trump reivindica vitória por ter interrompido o caminho nuclear iraniano, a aposta de Netanyahu de remodelar a região pela guerra saiu pela culatra, deixando Israel enredado no Líbano e a aliança sob pressão.
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