
A paternidade exposta: entre sorrisos, temores e políticas de Estado
No Dia dos Pais, um pai em Abu Dhabi partilha a jornada com três filhos autistas, enquanto em África líderes religiosos e executivos redefinem o que é ser pai — e os Emirados ancoram o papel paterno em leis e fundos bilionários.
Na penumbra de um salão em Abu Dhabi, um pai levantou-se e começou a falar dos seus três filhos, todos diagnosticados com perturbação do espectro do autismo. Não havia triunfalismo na voz, apenas a cadência de quem atravessou anos de paciência, amor e insistência. A ocasião era uma iniciativa invulgar: a campanha «ابتسم... فابتسامتك تكفي لإسعادهم» («Sorria... o seu sorriso basta para os fazer felizes»), organizada sob o patrocínio da sheikha Moza bint Suhail para celebrar o Dia Mundial do Pai, concentrando-se nos pais de pessoas com deficiência — os «Ghaf dos Emirados», como lhes chamou o evento, numa alusão à árvore resistente do deserto. Ali, naquele instante, o testemunho não era sobre superação, mas sobre a teia invisível que sustenta cada pequeno avanço.
A milhares de quilómetros dali, em Gana, o reverendo Vincent Dakpo, presidente distrital do Conselho Local de Igrejas em Kadjebi, dizia à Agência de Notícias do Gana que a paternidade é «um privilégio e uma responsabilidade divina», exortando os pais a educarem os filhos no temor a Deus para travar a indisciplina e o abuso de substâncias. No mesmo país, o vice-presidente do Parlamento, Bernard Ahiafor, saudava os pais como «âncoras dos lares» e pedia às comunidades que os apoiassem. Na Nigéria, um grupo cristão de Uyo, os Men of Valour, divulgou uma lista de dez «Modelos de Paternidade Exemplar», encabeçada pelo bilionário Femi Otedola — elogiado por defender as carreiras artísticas das filhas em vez de lhes impor o mundo corporativo — e pelo pastor Paul Enenche, médico e líder da Dunamis International Gospel Centre, celebrado pelo casamento estável e pela mentoria a milhões de jovens. Em comum, estas vozes da África Ocidental revelam uma paternidade que se quer farol moral, mas também presença que legitima os sonhos dos filhos.
No Quénia, o tom foi mais confessional. O Business Daily Africa auscultou executivos e encontrou um discurso que desmancha a fantasia do controlo. O professor Busalile Jack Mwimali, secretário e CEO do Conselho de Educação Jurídica, admitiu o medo de que os filhos, criados sem as privações que ele conheceu, não encontrem motivação para o trabalho árduo. «Apesar do meu sucesso como pai, os meus filhos ainda podem falhar», disse, ecoando uma angústia que atravessa continentes. A sua ausência forçada — os filhos vivem em Dar es Salaam, ele em Nairobi — acrescenta uma camada de culpa: «Espero que os meus filhos nunca tenham de me perdoar por não lhes ter dado o futuro que merecem.» Esta nudez emocional contrasta com as celebrações públicas e lembra que a paternidade é, muitas vezes, um exercício de humildade.
Se em África a tónica recai sobre o exemplo individual e a exortação religiosa, nos Emirados Árabes Unidos a paternidade é também matéria de Estado. O país, que declarou 2026 como o «Ano da Família», tem vindo a inscrever o pai no centro das políticas sociais. O xeque Mohammed bin Rashid Al Maktoum lançou o «Waqf al-Ab» (Fundo do Pai), um mecanismo de doações em nome dos progenitores cujo rendimento, de um montante inicial de mil milhões de dirhams, será destinado a cuidados de saúde para os mais necessitados. Paralelamente, a Autoridade para a Primeira Infância de Abu Dhabi criou um selo de qualidade para ambientes de trabalho favoráveis aos pais, incentivando as empresas a adotarem práticas que permitam aos homens acompanhar o crescimento dos filhos. A própria campanha do sorriso, realizada em parceria com a Zayed Higher Organization for People of Determination e a Fundação Moza bint Suhail para Crianças Excecionais, insere-se nesse ecossistema que trata o pai não como figura decorativa, mas como «sócio principal na jornada de reabilitação e inclusão», nas palavras dos organizadores.
No Brasil, onde o Dia dos Pais se celebra em agosto, e em Portugal e nos países africanos de língua portuguesa, o debate sobre a paternidade ausente — tantas vezes sinónimo de provisão material sem lastro afetivo — encontra nestes relatos um espelho incómodo. A imagem que perdura não é a do pai herói, mas a do homem que, num salão de Abu Dhabi, descreveu os filhos autistas sem adornos, ou a do executivo queniano que confessou o medo de não ter estado presente. Talvez a paternidade contemporânea se meça menos pelos troféus e mais por aquilo que a campanha dos Emirados sintetizou: um sorriso que, de facto, basta para os fazer felizes.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Nos Emirados Árabes Unidos, o Dia dos Pais torna-se uma celebração dos pais de pessoas com determinação, cuja paciência e fé nas capacidades dos seus filhos são aclamadas como a base de histórias de sucesso inspiradoras. As políticas estatais colocam o pai no centro da legislação familiar, promovendo o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal e os valores comunitários, tudo enquadrado no próximo Ano da Família de 2026.
Em Gana, Nigéria e Quénia, o Dia dos Pais suscita apelos para que os pais eduquem os filhos com valores morais e religiosos como pilar do desenvolvimento nacional. Enquanto alguns celebram bilionários e figuras clericais como modelos de paternidade solidária, outros refletem sobre como a verdadeira paternidade desafia a lógica empresarial, exigindo humildade e improvisação.
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